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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Covid-19: como democratizar acesso à ECMO para salvar vidas?

Médica Ana Luiza Valle Martins afirma que terapia que ganhou fama no tratamento do ator Paulo Gustavo é aliada relevante no cuidado de outras doenças

Por Ana Luiza Valle Martins   Atualizado em 6 jun 2021, 10h49 - Publicado em 6 jun 2021, 10h39

Se você nunca conheceu pessoalmente ou conversou com algum dos profissionais da “linha de frente” no combate à pandemia do novo coronavírus, muito prazer. Sou um deles. Nesses meses turbulentos dentro dos centros médicos e de extrema dor pela perda de pessoas queridas, também somos movidos pela esperança. Acompanhei um caso que me emocionou demais. Uma jovem de 27 anos, ao se ver curada, correu feliz pelo hospital para abraçar cada integrante da nossa equipe e um em especial: a tecnologia. O equipamento que ajudou a salvar a sua vida.  

A máquina faz parte da terapia de ECMO, sigla em inglês para Oxigenação por Membrana Extracorpórea, também chamado de “pulmão ou coração artificial”. Seu objetivo é dar suporte. Quando o pulmão deixa de funcionar de forma adequada, entra em cena o “pulmão artificial”. Ele recebe o sangue do corpo do paciente, oxigena, retira gás carbônico e devolve pro organismo. Realiza as funções pulmonares, dando tempo de o organismo se recuperar de lesões que causem insuficiências respiratórias ou cardiorrespiratórias. Uma vez que o organismo se recupera, o equipamento pode ser removido. Foi o que aconteceu com a jovem curada da Covid-19. 

A ECMO, porém, não é só mecânica. Seu principal diferencial é humano. Os cuidados da terapia são ainda mais complexos do que os recomendados em um ambiente normal de CTI. O acompanhamento é feito 24 horas por um time multidisciplinar, de cirurgiões cardíacos, médicos especialistas em ECMO e intensivistas, fisioterapeutas e enfermeiros. Em um período que vai em média de duas a quatro semanas, é extremamente importante olhar de perto o paciente. Não adianta acompanhar somente a máquina. Pode acontecer de o equipamento funcionar de modo perfeito, mas o paciente vir a falecer porque contraiu bactéria, intercorreu com um sangramento, uma piora de outro órgão, ou simplesmente por não haver melhora do quadro de base. São inúmeras variáveis. 

A preparação de um profissional com foco na terapia pode levar  anos. Autoridade máxima em ECMO no mundo, a Extracorporeal Life Support Organization (ELSO) credenciou até hoje no Brasil apenas 29 centros médicos para a realização do procedimento – ficam em São Paulo e Campinas (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte e Nova Lima (MG), Vila Velha (ES), Brasília (DF), Goiânia (GO), Fortaleza (CE), Recife (PE), São Luís (MA), Joinville (SC) e Porto Alegre (RS). A chancela da ELSO, porém, não é pré-requisito obrigatório. Tanto que, na rápida multiplicação dos casos de Covid e na urgência dos atendimentos, nem sempre a ECMO vem sendo aplicada por especialistas credenciados, usando os devidos cuidados, ou pelos profissionais mais familiarizados com a terapia. Essa banalização diminui as chances de sucesso. Segundo números da ELSO, a taxa de mortalidade verificada em centros especializados é de 50%. Fora desses centros, o índice pode chegar a 90%.

Fica o alerta. Ampliar o acesso à ECMO é, sim, uma necessidade, mas também um desafio e exige muita responsabilidade. Trata-se de um procedimento complexo e que envolve muitos riscos. Não dá para ser indicado a qualquer paciente. 

O lado bom da história é que o contexto da pandemia ajudou a divulgar a ECMO, que, apesar de sua importância, era desconhecida inclusive entre muitos médicos. Espero que a fama repentina incentive profissionais a se informarem quanto a indicação e os usos, e que os centros tenham responsabilidade no uso desse recurso caro e que precisa ser bem empregado. 

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Criada nos EUA, há mais de 40 anos, a ECMO não é exatamente uma novidade no Brasil. Sempre foi relevante no apoio a cirurgias cardíacas e no atendimento a pacientes que apresentam quadros como pneumonia severa, aspiração de mecônio por bebês, infecções pulmonares graves com insuficiência respiratória refratária. Na França, por exemplo, há um aparelho portátil de ECMO disponível no serviço pré-hospitalar. Em alguns países, quando o paciente não resiste, o equipamento ajuda a manter o organismo em condições de doar órgãos. 

Embora seu custo ainda seja alto, dado o nível de especialização dos profissionais envolvidos e os equipamentos e insumos em sua maioria importados, existe muito espaço no Brasil para que a terapia se desenvolva, ajudando a salvar ainda mais vidas. A médio  prazo, o próprio custo se dilui, já que a ECMO apresenta uma tendência a reduzir a morbidade, como chamamos as sequelas de uma doença. A técnica permite recuperar funções motoras e pulmonares com muito mais facilidade, reduzindo o investimento em saúde e melhorando a qualidade de vida das pessoas. São pontos importantes a se pensar para a cobertura dos convênios e a disponibilidade do procedimento no Sistema Único de Saúde (SUS). Isso não é uma conversa simples, e e nada tem a ver com o que ocorreu no início de maio, com uma proposta na Câmara dos Deputados para tornar disponível equipamento de ECMO nos Hospitais de Campanha. Essa discussão por certo não foi levantada por médicos especialistas, possivelmente surgiu de pessoas sem conhecimento e talvez desesperadas por um recurso que não conhecem o funcionamento. Ter uma máquina de ECMO para uso indiscriminado e sem experiência pode ser perigoso, a terapia está longe de ser isenta de riscos. O uso sem experiência pode ser desperdício de recurso na afã de gerar esperanças milagrosas, que não existem em medicina e podem fazer mais mal do que bem, ao paciente e a toda a família.

A ECMO já tem cobertura de alguns planos de saúde, que pode ser ainda maior com novos centros especializados e reconhecidos pela ELSO. Quanto mais preparados estiverem os hospitais, maior a chance de indicação correta e a segurança dos planos em cobrir a terapia. Na rede pública, existe uma vontade para o uso da ECMO e nas últimas conversas sobre o tema havia uma preocupação com que, dada a complexidade, essa terapia fosse realizada em centros especializados, como a cirurgia cardíaca. 

Sendo essa uma exigência, é necessário estudar a melhor forma para que seja implantada e organizar uma estratégia. Porque vale a pena. O custo não pode ser um obstáculo, pois certos procedimentos e medicações oferecidos pelo SUS, no longo prazo, demandam investimentos mais elevados que o da própria ECMO, em geral realizada uma vez. Não podemos continuar perdendo vidas com soluções que já existem, mas que não são concretizadas por desinformação.  

A ECMO manteve o ator Paulo Gustavo vivo por mais de 30 dias. No fim, o que aconteceu foi algo que extrapolou o problema do pulmão, ao qual inicialmente a ECMO dava apoio. Ao que tudo indica, sua morte foi provocada por um quadro de embolia, relacionado à complicações da Covid-19, que aconteceu por uma fragilidade do pulmão – lesionado pela doença. E, quando o problema do paciente extrapola a questão pulmonar, a ECMO não consegue resolver. Tampouco essa é sua função. 

A luta travada pelo talentoso comediante terminou de uma forma muito triste. Mas que, de alguma forma, ela possa nos inspirar para fazer com que a ECMO chegue a um número cada vez maior de brasileiros, devolvendo o sorriso aos pacientes e a seus familiares.    

* Ana Luiza Valle Martins é médica intensivista, Research Fellow Hospital Erasme Bruxelas-Bélgica e doutoranda do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da UFMG. Especialista em ECMO adulto e pediátrico pela ELSO (Extracorporeal Life Support Organization), é diretora clínica da ECMO Minas e atua nas UTIs do Hospital Mater Dei e do Hospital Eduardo de Menezes (Rede Fhemig). 

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