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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Cidadania além do voto

Artigo do ensaísta Davi Lago lembra as marcas das democracias desenvolvidas e que há três níveis de racionalidade e consciência política

Por Davi Lago Atualizado em 22 nov 2020, 12h49 - Publicado em 22 nov 2020, 12h47

Como os integrantes de uma nação democrática se comportam politicamente além das eleições? Baseados nesta indagação, os professores Gabriel Almond e Sidney Verba desenvolveram uma ampla pesquisa sobre a cultura política de Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, Itália e México. Os resultados foram publicados na obra The Civic Culture em 1963.

Através de estatísticas, análises comparadas, observação de padrões comportamentais e ferramentas da psicologia social, os dois autores afirmam que há três níveis de racionalidade e consciência política: o nível cognitivo envolve os conhecimentos e crenças dos indivíduos sobre os diferentes objetos políticos; o nível afetivo engloba os sentimentos de ligação e envolvimento dos indivíduos em relação aos objetos políticos; e o nível avaliativo envolve a capacidade dos indivíduos em julgar criticamente os objetos políticos.

Além disso, a matriz analítica de Almond e Verba estabelece três tipos de cultura política (paroquial, sujeita e participante). A primeira é a cultura política paroquial: nesta cultura o indivíduo não conhece o sistema político, ou seja, desconhece as formas de manifestação política (inputs), os órgãos burocráticos (outputs) e seu papel como ator político (self). Deste modo, a pessoa nesta cultura está alienada e alheia ao funcionamento político. A segunda é a cultura política sujeita: nesta cultura o indivíduo conhece as possibilidades de participação política, os aparatos burocráticos e as regras do jogo, mas não entende a si próprio como um ator político. Deste modo, o indivíduo se torna passivo, em condição de sujeição ao sistema político. A terceira é a cultura política participativa: nesta cultura o indivíduo compreende integralmente o funcionamento do sistema político no qual está inserido, bem como a sua própria importância como ator político. Esta cultura gera uma cidadania ativa, atuante, participativa.

A matriz analítica proposta por Almond e Verba foi uma inovação importante para os estudos acadêmicos do fenômeno político pois quebrou a ênfase dos pesquisadores em focar sempre no ponto de vista institucional, demonstrando como poderiam ser produtivas as análises realizadas a partir do comportamento dos indivíduos. Após uma série de críticas, reavaliações e melhorias conceituais, o trabalho foi refinado na obra The Civic Culture Revisited de 1980. A partir daí, autores como Ronald Inglehart, Larry Diamond e Robert Putnam desenvolveram novas linhas de pesquisa dando maior amplitude e profundidade ao campo da “cultura política”.

As implicações atuais destes estudos revelam que as nações com índices superiores de desenvolvimento humano como Noruega, Suíça e Suécia apresentam marcas como: compromisso de longo prazo com as instituições democráticas, participação cívica nos assuntos públicos, igualdade política, existência de associações sociais e políticas, e índices superiores de solidariedade, tolerância e confiança interpessoal. São marcas as serem desenvolvidas pelas jovens democracias – como a brasileira.

* Davi Lago é pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo

 

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