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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Cazuza canta o tempo de hoje

Poeta e compositor morto há 30 anos tem versos que se encaixam perfeitamente nos dias atuais de tanta crise e desesperança 

Por Matheus Leitão - Atualizado em 7 jul 2020, 22h06 - Publicado em 7 jul 2020, 19h32

Cazuza foi o poeta da transição dos tempos políticos, nos anos 1980, quando já havia passado a grande luta pela redemocratização, mas muita coisa ainda estava fora do lugar naquele Brasil. Ele cantou o desconforto, a desesperança, a aflição com a “caretice”, mas o incrível é que, olhando hoje, parece que o músico previu 2020, 2019, 2018…

No aniversário de 30 anos de sua morte, a genialidade de Cazuza ganha uma nova dimensão. Desde o início da atual crise política e econômica, nascida no final de 2014, a democracia brasileira parece viver de sobressaltos em sobressaltos. Se testemunhasse uma eleição em que um candidato exaltou notório torturador e ainda saiu vencedor, o músico certamente diria “meus inimigos estão no poder”.

Em tempo de intolerância nas redes, nas quais as palavras “comunismo” e “fascismo” voltaram a ser usadas constantemente, fica a pergunta: será que Cazuza diria “ideologia, eu quero uma para viver”? “O meu partido é um coração partido. E as ilusões estão todas perdidas. O meu futuro é duvidoso, eu vejo grana, eu vejo dor”, responderia ele com um dos seus clássicos.

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A recusa em aceitar os ditames da “burguesia” se traduziu num rock pulsante com ativismo poético e comportamental contra uma sociedade que se apresentava doente, carente de um projeto que cativasse gerações. Suas músicas já entoavam protestos contra a corrupção, mas sem a dose de fanatismo que décadas depois iria ajudar a cindir o país numa fenda autofágica.

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Cazuza e seus parceiros musicais legaram ao país versos célebres como “a tua piscina tá cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos fatos, não, o tempo não para”. E o tempo de fato não parou, muito embora haja uma sensação latente, suspensa em um ar pesado e triste, de que estamos “vendo o futuro repetir um passado”. Cada vez mais trágico.

O poeta foi o porta voz visceral de uma geração que gritava por liberdade política, artística, cívica e sexual depois de 21 anos de arbítrio e perseguição. Esgotou nas canções um grito de revolta e crítica que mobilizou uma juventude politizada. A mesma geração que queria apenas viver e fazer “o dia nascer feliz”. A arte claramente atemporal de Cazuza deixou até uma promessa que se viu cumprida: “Grande pátria desimportante em nenhum instante eu vou te trair”.

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