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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Bolsonaro, o pinguim da geladeira e a crise de representatividade no país

Gabriela Koentopp mostra que são as imagens que constroem as narrativas e, quando tratamos delas, também falamos de disputas sobre discursos

Por Gabriela Koentopp Atualizado em 22 set 2021, 18h54 - Publicado em 19 set 2021, 08h04

Provavelmente ninguém conseguiu apagar da visão a mesa suja de migalhas de pão e leite condensado, a entrevista na prancha de surfe, as cenas das lives, a sanfona tocando uma Ave Maria praticamente irreconhecível, e, na memória mais recente, a multidão vestindo camisetas da CBF segurando cartazes pedindo outside ministers. Mas o que, de fato, estas imagens podem nos dizer sobre a estética do atual governo, e por que isso importa em tempos de crise?

Falar em estética não é limitar a discussão aos princípios gestálticos. A estética é muito mais ampla e toca todo o universo da percepção. É a maneira como grupos constroem e veem o mundo, em torno do qual se formam discursos, símbolos, cores, formas e corpos. Por este motivo, as armas estéticas são mais potentes do que as armas de fogo, já que estão no campo da linguagem e do simbólico. Uma guerra pode não ser feita de palavras, por exemplo, mas são justamente os discursos e simbologias que levam à ela. Não é à toa que os artistas são os primeiros a serem censurados em qualquer governo anti-democrático.

As imagens são os principais meios de mediação com o cotidiano. A autora Giselle Beiguelman, autora do livro Política das Imagens, lançado recentemente pela editora UBU, defende que a cultura visual é indissociável da produção imagética das redes sociais. Não é só uma questão da quantidade massiva de bytes que são lançados na internet por segundo, em forma de selfies, fotografias diversas, curtidas e reações, mas é também uma mudança cultural e comportamental. É por meio das imagens que construímos boa parte de nossas narrativas e posicionamentos. Por isso, quando falamos em imagens também falamos sobre disputas de discursos.

Não é possível tratar desta discussão sem falar de Rancière, autor do livro A partilha do Sensível, e de outros que traçam um paralelo entre estética e política. Elas são formas que constituem a visibilidade dos acontecimentos, segundo o autor. A política é uma maneira de se colocar no mundo, de se posicionar como habitantes de um espaço comum e reivindicar a palavra. E a estética não é somente um reflexo da política, já que não há arte sem um discurso ou sem uma forma específica de visibilidade. Por um lado, ela mobiliza e produz coletivos e, por outro, demarca fronteiras. Nós versus eles.

E neste momento, no Brasil, há uma crise de representatividade política que, por consequência, gerou novos modelos estéticos, e vice-versa. 

Quando criticamos as imagens aparentemente amadoras da extrema direita brasileira, não é um simples julgamento moral, porque o bonito e o feio são só perspectivas diferentes. O que estamos criticando realmente é como e porque estas simbologias existem, e para qual fim. As fotos compartilhadas no Whatsapp carregam mais do que formas desproporcionais e fotografias mal recortadas. Aquela imagem pixelada, com tons gritantes de verde e amarelo e dizeres grandes demais, que recebemos no grupo da família, do condomínio ou dos colegas de trabalho, é mais do que visualmente perturbadora.

Em um mundo de imagens HD, o aparente desligamento dos conceitos de design nas postagens bolsonaristas é uma escolha. O comportamento político se mostra em formas, e, neste caso, estas imagens são uma maneira de aproximação com o real, como se não houvesse interferência entre o “mito” e seus apoiadores. Os dispositivos móveis, providos de câmera e acesso à internet, geraram uma nova estética das imagens: por conta da efemeridade, o que importa não é tanto o enquadramento ou a qualidade visual. Nestes lugares virtuais, não é o regime estético das artes que flui, mas o do momentâneo. Os dispositivos de captação transformam-se em dispositivos de projeção do sujeito.

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Mais do que isso, a imagem de Bolsonaro não fala com o eleitor, ela se torna um espelho. Quem o apoia, na verdade, apoia a si mesmo – o seguidor transforma-se em herói e em mito de sua própria fantasia. E mitos, por serem irracionais, não precisam fazer sentido para existir, basta corresponderem às necessidades de um grupo. 

Se engana quem pensa que o desligamento dos padrões estéticos é original e não é muito bem pensado. O descompasso com as tendências visuais reflete o descompasso com as mudanças, a negação de novos estilos de vida e de progresso. Tudo que o atual governo defende. E o desligamento de padrões acaba criando um outro padrão. Mais uma vez, o nós versus eles.

E qual seria o melhor termo para definir a estética desta direita extremista? Há estudos que têm se debruçado sobre este tema, como o projeto de pesquisa Bolsonarismo: Novo Fascismo brasileiro. Para os pesquisadores, Kitsch é aquilo que tem pouca qualidade, padrões estéticos duvidosos, objetos vulgares e banais, exagero e superficialidade. Desde o século XIX, foi utilizado para definir o empobrecimento da experiência estética, a rejeição à intelectualidade artística e a valorização do status do indivíduo que consome um objeto. 

Mais do que uma aproximação com a arte popular, é a tentativa de alcançar prestígio social por meio do consumo. O kitsch é uma estética sentimental, que gera conforto, mas nunca instigação. Não é feita para fazer pensar ou refletir.

Todo mundo tem um objeto kitsch em casa, e não há problema algum nisso. Aquele souvenir da sua última viagem, o pinguim em cima da geladeira, o vaso de abacaxi ou os famosos anões de jardim, rodeando a coitada Branca de neve com o rosto um pouco branco demais pela exposição às intempéries. Estes objetos não carregam em si uma coisa negativa, eles possuem até um peso sentimental. E não é porque você tem algum desses objetos em casa que se alinha à extrema direita – não precisa sair correndo para jogar as flores de plástico no lixo.

Da mesma forma, a discussão não está centrada no paletó com a camiseta do time de futebol – apesar de ser visualmente desagradável. O problema é quando este conceito é utilizado para gerar comoção e encobrir atitudes irracionais e vulgares. Ou mais, quando se utiliza dos símbolos nacionais e da própria noção de patriotismo para defender uma figura autoritária, ignorante e desqualificada. 

* Gabriela Koentopp é arquiteta, urbanista pela UFPR e mestranda pelo IAU-USP. Concentra suas pesquisas na área de Arte, Cidade e Cultura. Fundadora do Studio Mees, atuou em exposições no MON, MAC-PR e Maria Antonia-USP. É colunista de arte contemporânea no jornal Plural (e espero que sempre colabore com a coluna)

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