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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Apoio a Bolsonaro já pesa sobre reputação de evangélicos, diz teólogo

Pastor Ed René Kivitz critica postura do presidente de se opor à ciência durante a pandemia: 'Vida humana não pode entrar em conta de custo-benefício'

Por Matheus Leitão Atualizado em 21 abr 2020, 16h28 - Publicado em 21 abr 2020, 10h17

O teólogo e pastor da Igreja Batista de Água Branca (Ibab), em São Paulo, Ed René Kivitz, um dos mais populares religiosos do país, acredita que a associação da fé cristã protestante com o governo Jair Bolsonaro já está pesando sobre a reputação dos evangélicos.

Em entrevista à coluna, o pastor, um dos poucos líderes evangélicos críticos da atual gestão federal e da mistura de religião com política, sustenta que, de acordo com os valores cristãos, a vida humana não pode entrar em conta de custo-benefício, pois a morte que pode ser evitada é inaceitável.

A crítica é direta à postura do presidente no atual contexto da pandemia do coronavírus, quando o político reiteradamente resolveu contrapor-se à ciência e às medidas de combate da doença, como o isolamento social, usando a economia do país como subterfúgio.

Ed René Kivitz destaca que uma pessoa morrer de velhice, ou com uma enfermidade que, apesar dos cuidados da medicina, não foi possível evitar, é lamentável. Já um óbito que poderia ser evitado com cuidados profiláticos e terapêuticos, e se aceita, contabilizando essa morte como o ônus para outros ganhos, contraria o que é o natural do evangelho: ou seja, o acolher, o cuidar do pobre e da viúva, dos desassistidos, dos enfermos. 

“Esse descuido para com a vida humana é incompatível com os valores da fé cristã. Então, uma igreja que dá suporte a essa identidade política se compromete mesmo”, afirma Ed René Kivitz, que faz cultos online para mais de seis mil pessoas durante o período de isolamento social. 

Defensor ferrenho do estado laico, o pastor tem dado palestras pelo país reafirmando o direito dos cristãos de defender seus valores na esfera política, mas não de impô-los à sociedade. 

Na entrevista, o líder religioso fala sobre os riscos que a igreja evangélica brasileira corre ao se associar ao governo Bolsonaro (os evangélicos são hoje uma das suas principais bases de apoio político) no atual momento de crise sanitária, quando o vírus se alastrar pelas camadas mais pobres.

Segundo ele, há um risco duplo. O primeiro é que a comunidade religiosa (os fiéis), em um determinado momento, pode se voltar contra o governo, que a instruiu de maneira inadequada. E o segundo, que mais preocupa o pastor e teólogo, é um conflito de fé como o que ocorreu na Europa pós-guerra, quando as pessoas se perguntavam onde estava Deus enquanto ocorria o holocausto. 

“Porque essas pessoas, elas não estão ignorantes quanto aos riscos do vírus, mas elas estão acreditando que a bênção de Deus sobre elas é suficiente para poupá-las dessa fatalidade, enfim, poupá-las da morte. E aí as pessoas não vão apenas questionar o governo, mas elas vão questionar a própria benção de Deus”, afirma.

Na entrevista, Ed René Kivitz afirma ainda que, no caso do movimento evangélico, o principal dano à imagem tem a ver com reforçar a ideia de que religião e ciência são coisas antagônicas, que não conversam e que se hostilizam mutuamente. “Essa é uma visão muito equivocada da relação religião e ciência, mas fica reforçada num momento como esse”. 

Leia abaixo a primeira parte da entrevista do pastor e teólogo à coluna:

Blog – Os evangélicos hoje são uma das principais bases do presidente, que se apoia contra a ciência, contra aquilo que está sendo feito no mundo inteiro em relação à pandemia. O desgaste político de se aliar não pode pesar às próprias lideranças evangélicas e à igreja em algum momento?

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Ed René Kivitz – É, eu acho que vai pesar sim. Na verdade, acho que já está pesando no sentido de comprometer a reputação desse contingente evangélico. À medida em que o governo vai sofrendo avaliação negativa, toda a sua base de apoio sofre também. E no caso do movimento evangélico, o principal dano tem a ver com reforçar a ideia de que religião e ciência são coisas antagônicas, que não conversam e que se hostilizam mutuamente. Essa é uma visão muito equivocada da relação religião e ciência, mas fica reforçada num momento como esse. Reforçar a ideia de que religião é para pessoas ignorantes, que desprezam a importância da educação e do esclarecimento. Já o outro dano eu acho que também é no sentido valorativo, se posso chamar assim, que é associar o evangelho a um governo de índole tão contrária ao respeito à vida humana. Não apenas na questão já sabida das declarações do presidente Bolsonaro quanto à tortura, quanto à violência, toda a ênfase de armamento, de uma ação belicosa, uma cultura bélica e violenta, mas ultimamente também, o desprezo à vida humana, submetendo a vida humana a esse cálculo pragmático de ‘pessoas têm que morrer, paciência, temos que salvar o país e a economia do país… e se as pessoas morrerem, paciência’. Quer dizer, esse descuido para com a vida humana é incompatível com os valores da fé cristã. Então, uma igreja que dá suporte a essa identidade política se compromete mesmo. 

Blog – De que forma, na sua opinião?

Ed René Kivitz – Por exemplo, a vida humana, a morte que pode ser evitada é inaceitável. A gente lamenta a morte quando não foi possível evitar. A gente chama isso de fatalidade. A gente ofereceu todo cuidado disponível, mas não foi possível. Então isso é uma fatalidade e é inerente à finitude humana. Sabe, uma pessoa morrer de velhice, ou com uma enfermidade que, apesar dos cuidados da medicina, não foi possível evitar a morte, a gente lamenta. Mas uma morte que poderia ser evitada com cuidados profiláticos e com cuidados terapêuticos, e a gente aceita e contabiliza essa morte que poderia ser evitada como o ônus para outros ganhos numa a relação de custo-benefício… a vida humana não pode entrar em conta de custo-benefício.

Blog – É possível que a doença avance agora entre as camadas mais pobres, onde estão uma base grande dos evangélicos. Isso não pode revelar ainda mais a contradição desse apoio da igreja ao Bolsonaro? 

Ed René Kivitz  – Acho que tem um risco duplo aí. O primeiro é que a comunidade religiosa, em um determinado momento, vai se voltar contra o governo, que a instruiu de maneira inadequada. Mas o risco maior que eu vejo é o abalo e a crise de fé que isso pode gerar. Porque essas pessoas, elas não estão ignorantes quanto aos riscos do vírus, mas elas estão acreditando que a bênção de Deus sobre elas é suficiente para poupá-las dessa fatalidade, enfim, poupá-las da morte. E aí as pessoas não vão apenas questionar o governo, mas elas vão questionar a própria benção de Deus, o poder de Deus, a existência de Deus. Eu temo que isso gere uma crise de fé muito grande, muito significativa. 

Ed René Kivitz
Ed René Kivitz durante transmissão online do culto deste domingo na Igreja Batista de Água Branca Reprodução/Arquivo

Blog – Qual a dimensão desta crise de fé?

Ed René Kivitz  – Eu acho que pode, pode gerar uma crise de fé, como a que aconteceu na Europa pós-guerra: ‘onde estava Deus enquanto estava acontecendo o holocausto? Onde estava Deus enquanto nossos filhos morriam e os nossos corpos eram empilhados?’. Essa pergunta a respeito do papel e do lugar de Deus no mundo ela vai começar a ser feita com muito mais intensidade, eu acho. 

Blog – Durante mas também no pós-pandemia?

Ed René Kivitz  – Eu acho que sim. O que eu quero dizer é que eu não consigo avaliar qual é o rebote do apoio da comunidade evangélica para com o governo, mas eu temo a ressaca dessa experiência na experiência de fé. É o que me ocupa mais, é o que me preocupa mais.

Blog – Qual será mais fácil de medir?

Ed René Kivitz – Não sei porque a medida do apoio evangélico ao governo vai ser a urna. Tem um critério muito objetivo, mas as crises de fé, e as doenças da alma, e as doenças espirituais ou as sequelas espirituais de uma crise de fé é difícil de você mensurar. Acho que a questão, o desenlace da relação com o governo talvez seja mais fácil de mensurar.

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