Clique e assine a partir de 9,90/mês
Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

A existência pouco conhecida do Partido Nazista e do fascismo no Brasil

O país já teve legendas de extrema direita que reuniram milhares de militantes. Professora prepara livro sobre como os grupos cresceram por 10 anos no país

Por Matheus Leitão - Atualizado em 24 Jun 2020, 09h27 - Publicado em 24 Jun 2020, 07h19

O Partido Nazista existiu legalmente no Brasil por 10 anos e espalhou-se por 17 estados. A exigência inicial para entrar na agremiação era a prova de ascendência ariana, o que, em um país tão miscigenado, poderia atrapalhar o crescimento da legenda. Apesar disso, chegou a ser a maior seção fora da Alemanha na década de 1930

A história é pouco conhecida no país. Mesmo havendo alguns estudos importantes sobre o assunto, entre eles a tese “Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil”, de Ana Maria Dietrich, o conhecimento está restrito ao mundo acadêmico. A historiadora Heloisa Starling, contudo, deve mudar essa realidade. Ela está escrevendo um livro sobre grupos políticos brasileiros de extrema direita para a “Bazar do Tempo”.

ASSINE VEJA

Acharam o Queiroz. E perto demais Leia nesta edição: como a prisão do ex-policial pode afetar o destino do governo Bolsonaro e, na cobertura sobre Covid-19, a estabilização do número de mortes no Brasil
Clique e Assine

Ou seja, a pesquisa avançará para além do Partido Nazista. É que o país já conhece um pouco mais a atuação da Ação Integralista Brasileira, ainda que a dimensão dada pela professora Heloisa Starling no livro impressione. A agremiação, de explícita inspiração fascista, chegou a ter de 100 mil a 200 mil adeptos no país.

No Paraná, onde arregimentou de 35 mil a 40 mil militantes, o Partido Integralista elegeu 24 vereadores e dois prefeitos. A cena mais impressionante dessa legenda de extrema direita, no entanto, foi testemunhada em São Paulo, no longínquo outubro de 1934.

Continua após a publicidade

“Quarenta mil integralistas desfilaram organizados em seções, batendo as botas no chão, em cadência militar – camisas verdes, braçadeiras com insígnias em negro, a letra grega sigma, de soma – estandartes desfraldados audaciosamente à luz do dia numa marcação cênica que pretendia demonstrar força”, conta Heloisa Starling em sua pesquisa.

A obra da historiadora chegará às livrarias numa época em que grupos de extrema direita com estética nazista e fascista renascem no Brasil. Os dois modelos são impulsionados pela autoritária abordagem política bolsonarista. Neste ano, o decano Celso de Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal, chegou a comparar a situação política atual do Brasil à da Alemanha nazista.

A partir de 1932, os integralistas brasileiros foram, por exemplo, o primeiro partido político de massas com inserção nacional. Mas ao lado dele, de forma contemporânea, também crescia o Partido Nazista no Brasil, assim mesmo, com esse nome e à luz do dia.

“No Brasil, a tendência mais frequente na história e na ciência política, com exceções, claro, tem sido ver nazismo e fascismo ou como um assunto que está muito longe de nós ou como movimentos residuais circunscritos a uma conjuntura histórica muito específica – a segunda metade dos anos 1930. Talvez seja um equívoco”, afirma Heloisa Starling.

Continua após a publicidade

Há 90 anos, os integralistas arrebanharam apoio nos setores das classes médias urbanas, sobretudo entre funcionários públicos, padres, profissionais liberais, poetas, comerciantes, industriais e nas áreas de colonização alemã e italiana.

“Recebiam assessoria e ajuda financeira da Embaixada da Itália, dispunham, entre seus quadros, de um grupo de intelectuais prontos a produzir ideologia fascista em moldura de brasilidade – Plínio Salgado, Miguel Reale, Gustavo Barroso – e contavam com uma militância que se preparava para tornar esse projeto possível”, explica a historiadora.

Menos visível, talvez, conta Heloísa Starling, foi o movimento de aproximação com o fascismo que cresceu no meio dos oficiais das Forças Armadas. “O general Góis Monteiro, por exemplo, a mais competente e poderosa patente do Exército de então, não tinha nenhuma dúvida de que o fascismo italiano apresentava a melhor alternativa para o que poderia ser feito no Brasil como instrumento de regeneração nacional”, diz a historiadora.

A pesquisa mostra que a sede do Partido Nazista no Brasil ficava em São Paulo com o maior número de filiados. As reuniões semanais tinham uma frequência média de 80 pessoas. Em seguida, vinham Santa Catarina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Continua após a publicidade

No Nordeste, o maior contingente atuava em Pernambuco e na Bahia. No Norte, era concentrado no Pará. No Centro-Oeste, em Mato Grosso. Em 1935, o partido tinha, em todo Brasil, 57 núcleos organizados, 17 grupos locais, 40 pontos de apoio.

A legenda funcionou de 1928 até 1938, quando o ditador Getulio Vargas proibiu a existência de partidos em geral. Mas o grupo extremista continuou a atuar clandestinamente na década de 40 através de organizações de fachada, como a Frente Alemã de Trabalho.

“O Partido Nazista no Brasil fez festas, como no aniversário de Hitler, 1º de maio, lançou um punhado de jornais e algumas revistas para fazer propaganda direta do Reich e difundir idéias antisemitas. Realizou eventos esportivos, criou escolas. Também recolhia informações de natureza econômica e política para o Reich”, informa Heloisa Starling.

Timothy Snyder, no livro “Sobre a tirania; vinte lições do século XX para o presente”, relata  que “quando pessoas armadas que sempre afirmaram ser contra o sistema começam a usar uniformes, e a desfilar com tochas e retratos de um líder, o fim está próximo”. O livro de Heloisa Starling, ainda sem um nome definido, pode ser um bom balizador para entendermos o que de fato acontece no Brasil radicalizado de 2020.

Publicidade