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Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

O crime de Bolsonaro e Pazuello no caso do oxigênio em Manaus

Presidente e ministro sabiam pelo menos desde segunda-feira que os estoques dos hospitais eram insuficientes. Só agiram três dias depois

Por Marcos Emílio Gomes Atualizado em 18 jan 2021, 22h49 - Publicado em 15 jan 2021, 10h46

O general Eduardo Pazuello chegou a Manaus na segunda-feira, para tratar da nova e violenta onda da Covid-19 no Amazonas. No dia seguinte, terça, 12, o capitão Jair Bolsonaro declarou a apoiadores que a crise sanitária no Estado era resultado de inação de autoridades locais, que não teriam adotado o tratamento precoce com cloroquina e azitromicina recomendado pelo Ministério da Saúde. Acrescentou que estavam ocorrendo mortes na rede hospitalar de Manaus por asfixia, de pacientes para os quais faltava oxigênio. Ou seja, teve informações de seu ministro a esse respeito e sua única providência foi fazer críticas a adversários diante de bolsonaristas.

O presidente sabia desde segunda-feira que havia falta de oxigênio em Manaus.

Na mesma terça-feira, Pazuello continuava em Manaus. E nenhuma providência havia sido tomada para repor, em situação de emergência, o oxigênio que faltava nos hospitais e cuja escassez estava matando doentes. Lembre-se que o general é supostamente um especialista em logística, alguém cujo cérebro, diante da palavra “escassez”, deveria imediatamente reagir com um raciocínio elementar sobre como resolver o problema.

Pazuello não anunciou na terça-feira nenhuma providência a respeito.

Na quarta-feira, dia 13, soube-se que a Justiça de Manaus determinou na tarde anterior que um fornecedor de oxigênio providenciasse o produto para um hospital da capital amazonense em caráter de urgência, e então se descobriu também que o problema se agravava havia alguns dias. Pazuello informou em declaração à imprensa: “Nós estamos há mais de três semanas com a minha equipe trabalhando com a prefeitura e o governo, discutindo soluções e resolvendo na hora o que tiver que resolver”.

Equipe do ministério estava em Manaus havia três semanas, sem que se falasse do risco de faltar oxigênio.

Só na quinta-feira, três dias depois da chegada do ministro a Manaus e, segundo ele, três semanas depois de sua equipe ter se instalado no Amazonas, é que aviões da FAB partiram de São Paulo levando cilindros de oxigênio para a capital do Estado, em operação de emergência. À noite, o general estrelou a live semanal do presidente narrando o descalabro sanitário na Amazônia.

Aviões da FAB só levaram oxigênio para Manaus na quinta-feira. Um paciente grave sem oxigênio morre em algumas horas.

Não há nenhuma desculpa para que Bolsonaro e Pazuello tenham deixado morrer asfixiadas nos hospitais de Manaus sabe-se lá quantas pessoas antes de tomar providências para tratar do problema. Presidente e ministro poderiam criticar outros políticos, reclamar da falta de estrutura, condenar tratamentos, incitar apoiadores e receitar emplastros e placebos, fazer o que desejassem, desde que tivessem tomado as providências para salvar vidas assim que tiveram notícia do problema.

O comportamento do capitão e do general configura crime de responsabilidade, atentado contra a vida.

A Constituição tem ferramentas suficientes para caracterizar as atitudes dos dois como crime de responsabilidade – sem qualquer dúvida. Do mesmo modo, a própria campanha de Bolsonaro contra a vacinação, sua insistência em recriminar autoridades que buscam providências efetivas para reduzir a pandemia e todas as bobagens que disse a respeito ao longo dos últimos meses caracterizam, em qualquer junta médica e tribunal, comportamento psicótico e genocida, determinante de imediata interdição e submissão à tutela.

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Nas vacinas, basta esperar o dia 20 para ver uma nova catástrofe

E é nas mãos desses dois celerados que está o plano nacional de vacinação contra a Covid, que deve começar dia 20, “e ponto”, como costuma assinalar Pazuello. Não há nenhuma razão para acreditar que não haverá grandes e novos problemas, provocados pelo próprio e por seu chefe. Faltam respostas para a definição do prazo e reserva de imunizantes para a segunda dose de quem tomar a primeira, para os critérios de distribuição dos dois diferentes tipos de vacina que devem ser utilizados (uma, recorde-se, com índice de eficiência maior do que a outra) e para o controle sobre a totalidade de pessoas vacinadas, entre dezenas de outras. O próximo capítulo tende a ser pior do que o que se viu até agora.

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Notas relevantes sobre as vacinas liberadas no domingo, dia 17, neste link.

 

 

 

 

 

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