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Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

Nelson Teich, por enquanto, é o ministro da saúva

Sob tutela militar e pressão de Bolsonaro, ele assiste à ampliação da crise, desmonta a estrutura da pasta e se esquiva de liderar o combate à Covid-19

Por Marcos Emílio Gomes - Atualizado em 7 maio 2020, 18h33 - Publicado em 7 maio 2020, 17h45

Descritas como incansáveis trabalhadoras, as formigas prestam-se a muitas fábulas e analogias. As saúvas, por exemplo, trabalham muito e organizadamente para o sucesso de seus formigueiros, mas causam estrago enorme para quem depende das plantações que costumam atacar.

Macunaíma, o personagem criado pelo escritor Mário de Andrade (1893-1945), afirmava que “muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são”.

No processo de fritura que levou à escolha do oncologista Nelson Teich para a substituição do ministro Luiz Henrique Mandetta, o presidente Jair Bolsonaro deixou claro que estava mais preocupado com as saúvas do que com o Ministério da Saúde. E Teich parece dar conta do recado.

Com qualificação reconhecida na medicina privada, mas nenhum traquejo político, tudo o que Nelson Teich conseguiu até agora foi dizer frases que contradizem a si mesmas, numa óbvia tentativa de evitar colisão com o Planalto e desmontar, ao mesmo tempo, boa parte da estrutura que tinha se estabelecido na mobilização contra a pandemia da Covid-19.

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Caroneado pelo batalhão militar que se apossou das funções decisórias na pasta, Teich segue dizendo que desfará o que não pôde fazer ou que determinará imediatamente que o refeito seja desarmado para que algo se faça novamente. Se parece não fazer sentido, é porque não faz mesmo sentido nenhum.

Desde a posse de Teich, morreram sete mil brasileiros vitimados pelo coronavírus, pelo menos 100 mil foram infectados, estabeleceu-se o caos no serviço de saúde de cinco estados e uma dezena de militares passou a tutelar as ações de seu ministério. Sua promessa mais recente é de que a equipe fardada deixará da pasta depois da crise sanitária. A conferir.

Se Mandetta exagerava sob os holofotes, o novo titular apagou-os a ponto de esvaziar as coletivas de imprensa e mudou a periodicidade da divulgação de informações. Dados do perfil dos infectados pela doença, que antes eram divulgados nas coletivas diárias, agora estão prometidos para boletins semanais, mas ainda assim atrasam.

Conforme reportagem de Mateus Vargas no jornal O Estado de S.Paulo, gestores do SUS queixam-se de que, nesse período, o ministério ficou devendo, em relação às promessas de compras feitas a estados e municípios no início da ação contra a pandemia, 82% dos leitos de UTI, 96% dos respiradores, 80% dos testes rápidos e 97% dos testes de diagnóstico mais seguro.

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Tentativas de compras de equipamentos e materiais no exterior acabaram frustradas diante da concorrência com outros países, mais de uma dúzia de servidores da pasta envolvidos na campanha contra a Covid desde o início foram exonerados sem que tenha havido reposição em todos os postos e correm no ministério boatos de que uma parte desses cargos está reservada para atender à negociação de apoio político entre o presidente e o Centrão.

Na viagem a Manaus, sua mais reluzente atitude desde a posse, Teich desfez a promessa do antecessor sobre construir no Amazonas um hospital de campanha, alegando falta de recursos, mesmo depois de ter dito no Senado que o estado era prioridade absoluta.

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Três toneladas de equipamentos e 267 profissionais de saúde e foram enviados para a capital amazonense na última segunda-feira, mas a informação divulgada anteriormente era de que 581 médicos, enfermeiros e técnicos estavam sendo recrutados para a emergência sanitária no estado.

Outra frase célebre sobre o país, atribuída ao naturalista francês naturalista francês Auguste de Saint Hilaire (1779-1853), afirma: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”. Resgatada recentemente por bolsonaristas para sustentar a necessidade de reduzir a quarentena, a oração parece servir melhor a outro uso. Tem muita gente preocupada com a saúva, quando o foco, neste momento, poderia ser apontado estar na saúde.

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O texto Como o presidente sairá da pandemia, da crise e do palácio, publicado no site Ora Essa!, trata de alternativas do presidente depois da crise sanitária mundial.

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