Clique e assine a partir de 9,90/mês
Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

Militares são mão de obra disponível para a luta contra o coronavírus

Presidente tem poder para ordenar ação intensa das Forças Armadas na guerra contra a pandemia – uma possibilidade a lembrar no 31 de março

Por Marcos Emílio Gomes - Atualizado em 1 abr 2020, 08h28 - Publicado em 31 mar 2020, 15h51

O presidente Jair Bolsonaro, que nunca comandou nada e hoje é comandante-em-chefe das Forças Armadas, tem o poder de dar ordens suficientes para aliviar a crise provocada pelo combate à pandemia do Covid-19. Isso melhoraria sua posição na foto desse momento trágico da história sanitária do mundo, quando parece mais ocupado em contrariar a sensatez planetária e transformar o problema em questão eleitoral.

São notórias a capacidade e a vocação das três Armas para atuar nos pontos mais distantes do país e em momentos de comoção nacional. Não poucas vezes, realizam ações que atenuam o impacto da desigualdade social no Brasil. Contribuem para reduzir o impacto de calamidades que atingem sempre mais os que têm menos. Aumentam a oportunidade de sobrevivência dos que são geralmente considerados excluídos dos processos formais da economia, da legislação e até da dignidade.

Sobram exemplos. Brumadinho, enchentes, apoio ao tráfego de safras por estradas enlameadas, transporte de doentes de populações isoladas e campanhas de vacinação, para lembrar apenas poucos casos.

Mas as Forças Armadas dependem da hierarquia para que suas intervenções cresçam a ponto de fazer diferença neste momento. Basta conferir o que está sendo feito nas fontes oficiais de divulgação de informação do Exército, da Marinha e da Aeronáutica para perceber que há, sim, atividade na caserna contra a disseminação do coronavírus, mas ela está longe daquilo que poderia ser se o chefe supremo decidisse mobilizá-las de verdade.

Continua após a publicidade

Há noticias de reuniões nos estados com participação dos comandos regionais, informações acerca do apoio a medidas de prefeituras, dados relativos à produção de cloroquina e álcool gel e detalhes, principalmente, da chamada Operação Covid-19, com 5,5 mil militares, coordenada pelo Ministério da Defesa, para “apoio às ações federais, no controle de passageiros e tripulantes nos aeroportos, portos e terminais marítimos (…),  acesso das fronteiras (…), descontaminação de pessoal, ambientes e materiais (…), triagens de pessoas com suspeita de infecção (…) e hospitais de campanha”.

Com a disponibilidade de mais de 350 mil homens na ativa, pelo menos 1 milhão de reservistas recrutáveis, que passaram pelo período de treinamento obrigatório nas forças de defesa, em torno de 60 mil jovens no serviço militar atualmente e mais de 30 mil inativos com idade inferior a 60 anos (parte daqueles que se falava em contratar para o INSS), as Forças Armadas podem claramente fazer bem mais pelo país e para reduzir o impacto da crise junto à população carente.

Missões a realizar não faltam. Entre elas:

Criar linhas de logística que façam chegar às comunidades carentes os alimentos que estão sendo desperdiçados nos cinturões verdes por fechamento de entrepostos e problemas de escoamento; distribuir nessas mesmas áreas álcool gel e produtos de higiene recolhidos em campanha junto a empresas e à população; atuar na orientação de civis no entorno de hospitais e postos de saúde, organizando filas de vacinação e triando pacientes de primeiro atendimento; atuar em terminais de transporte na organização de passageiros para evitar proximidade com risco de contaminação; promover a distribuição de medicamentos, equipamentos e acessórios para serviços de saúde; transportar pacientes em estado grave de regiões desassistidas para centros hospitalares; auxiliar na segurança e na desinfecção de áreas públicas.

Continua após a publicidade

A lista pode ir muito além disso, dependendo, é claro, da determinação do presidente e dos comandantes que o cercam. Por enquanto, porém, o que se tem na divulgação de ações militares, excetuadas as atividades já listadas, são em boa parte medidas que visam a proteger as próprias tropas da contaminação, com campanhas de esclarecimento e higiene e serviços de desinfecção no entorno de instalações das Forças Armadas. Leia nestes links notícias a respeito do Ministério da Defesa, da Força Aérea, da Marinha e do Exército.

O cuidado nos quarteis é mais do que necessário, considerando os riscos de uma epidemia sobre locais onde vivem centenas de homens, mas a medida fica bem aquém da missão constitucional dos militares. “Proteger os cidadãos” é atividade de alta relevância na atividade militar, como destacam os comunicados do estado-maior conjunto – certamente mais importante do que cogitar ataques à Venezuela, como já se especulou.

Como se sabe, Jair Bolsonaro trocou a farda pela política após processo disciplinar que avaliou sua desobediência aos códigos de conduta do Exército e seu plano terrorista para explodir bombas em instalações militares. Depois disso, o capitão reformado tornou-se vivandeira dedicada à celebração da memória da tortura, da anarquia e da violência política nos quarteis.

Com seu apreço por homens fardados, transformou sua escrivaninha no Palácio do Planalto numa trincheira guardada por quatro generais e um major, atua como procurador das tropas para assuntos salariais e derrama-se emocionado quando busca exemplos de disciplina e patriotismo nas três Armas para discursar a favor da ordem e da hierarquia.

Continua após a publicidade

Neste momento, mesmo que suas preocupações com a economia sejam totalmente sinceras e admitindo-se que esteja honestamente confuso diante da necessidade de restrições sanitárias, nada o impede de mobilizar definitivamente as forças militares numa guerra contra o coronavírus. É só dar a ordem e comportar-se como comandante-em-chefe. Seria uma atitude ainda mais simbólica se fosse tomada hoje, 31 de março, data infame na história política do país.

Por favor, para fazer comentários sobre este texto use este link.

Publicidade