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Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

Contra os velhos, os doentes e os alijados

Paradoxo sanitário faz parecer inúteis as medidas eficazes no controle da pandemia. Inclemência ou ignorância levam muitos a pregar a volta da normalidade*

Por Marcos Emílio Gomes - Atualizado em 29 abr 2020, 16h16 - Publicado em 23 abr 2020, 16h29

O regime nazista matou um número praticamente incalculável de idosos senis, deficientes físicos e outros “doentes incuráveis”, como eram chamados. Na pandemia da Covid-19, os menos produtivos, social e economicamente, também estão no alvo, diante da indiferença que uma parte da população vem não só revelando, mas fazendo questão de exibir.

Essa parcela de brasileiros é felizmente minoritária. Mas muito barulhenta. Sob a liderança do presidente Jair Bolsonaro, está representada pelos que insistem pela imediata reabertura de todas as atividades comerciais, faz manifestações irresponsáveis que prejudicam o funcionamento de hospitais, além de criar riscos para si mesmos, e gasta os dedos atravancando as redes sociais com informações falsas ou mal-intencionadas.

Com base nos números que demonstram a aceleração da epidemia no Brasil, principalmente em determinados estados, até o momento menos acentuada do que em países do hemisfério norte, esses grupos fazem circular agora novos argumentos, alguns próximos da bizarrice, todos distantes da comprovação científica. Exibem a existência de vagas em UTIs do Centro-Sul e a lenta ocupação dos hospitais de campanha como troféus de suas razões.

Afirmam que o clima tropical seria menos favorável à sobrevivência do vírus. Sustentam que a cloroquina e outras drogas têm êxito incontestável nos tratamentos. Pregam uma espécie de supremacia antivirótica nacional, demonstrada pela sobrevivência de muitos no meio da mais degradante insalubridade. Teríamos assim criado o super-homem pelo caminho inverso ao da evolução, resistente porque degradado, humilhado, subjugado,

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Parece translúcida a essa gente a óbvia vigência, até agora, em São Paulo e em outros centros nos quais a pandemia evolui sem ritmo de catástrofe, de um paradoxo sanitário. Ou seja, quanto mais eficazes as medidas de restrição à circulação, com resultados positivos contra a pressão sobre o sistema de saúde, menos elas parecem necessárias. É quase a mesma situação dos que recusam a vacina contra pólio porque não se vê novos casos da doença – o que é, na verdade, resultado do sucesso da vacinação. (No blog Ora Essa! há um texto específico chamado “A epidemia de paradoxos”, neste link.

Há ainda um desprezo constrangedor pelo noticiário que mostra diferentes realidades não só nos estados em que há menos recursos, mas também nas áreas periféricas dos grandes centros urbanos. Se os hospitais centrais, aos quais são levados os que têm recursos para pagar caros planos de saúde, não parecem afogados numa inundação de pacientes acometidos pelo vírus Sars-CoV-2, a observação não vale para as regiões mais pobres, mesmo na cidade de São Paulo.

Ali, onde qualquer 1% a mais no volume de atendimentos já gerava o caos antes da Covid-19, o drama acentuou-se porque, mesmo que a entrada de pacientes tenha crescido pouco, sua permanência na UTI aumentou muito, e isso é motivo para cenas de filme de terror. A média de permanência em UTI obtida com programas como o Compromisso com a Qualidade Hospitalar, avalizado pela Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, e considerada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, variava de 4,5 a 10, 12 dias, conforme a rede estudada.

Um paciente da Covid-19 em estado grave raramente fica menos de vinte dias na terapia intensiva. É como se cada três leitos fossem transformados em apenas um. A expansão da demanda por UTIs da periferia para o centro indica que a relativa folga nos hospitais particulares, no Sudeste, pode ser comprometida em questão de alguns dias.

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Se isso acontecer, apagar discursos e cálculos otimistas encaminhados nas redes sociais será um processo também epidêmico, mas que não vai dar jeito quando um familiar ou um amigo precisar de um leito. Isso, sem falar no ritmo de contaminação das equipes de socorro, que podem tirar de atividade até 10% dos profissionais de saúde, considerando os números dos bem equipados hospitais italianos.

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É pelas mesmas razões que os hospitais do Ceará e do Amazonas estão perto, ou além, do limite de atendimento, e pelas quais o Pará segue na mesma direção. Analisando apenas os números de mortos por 100 mil habitantes – já que os casos confirmados e a quantidade de gente testada são meras fantasias -, verifica-se que os três estados têm letalidade comparável às de Espanha e Itália quando os dois países viviam o mesmo ponto de disseminação do vírus.

Se há no Brasil subnotificação de mortos, como é fácil supor, o cenário esperado para as próximas semanas é assustador. O drama em regiões mais quentes do país também põe no mínimo em dúvida a tal fraqueza tropical do coronavírus. Sabe-se muito pouco a respeito.

O presidente não ignora a dimensão do risco. O Ministério da Saúde o informa permanentemente a respeito e o Ministério da Defesa até já andou avaliando a capacidade de sepultamento pelo menos no Rio de Janeiro. A conta política de Bolsonaro, aceita pela militância em torno dele, indica que a epidemia contaminará pelo menos 80% dos brasileiros e vai matar uma parcela dos mais velhos, menos saudáveis e, como já se começa a perceber, também excluídos social e economicamente.

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Essas vidas, como chegou a dizer o presidente, afirmando-se imune por seu histórico de esportista, serão perdidas de qualquer jeito, não valendo, portanto, o sacrifício econômico do isolamento social. Está em risco, conforme suas palavras, o seu governo, o que se traduz pela sua chance de reeleição, ou de sobrevivência. (Sobre esse tema há um artigo no blog Ora Essa!, neste link.)

As consequências dessa postura conduzem a conclusões enojantes. Se vai ceifar vidas dos menos produtivos na economia, a epidemia estará também abrindo espaço para alívio no caixa federal a médio prazo, porque significará poupança no pagamento de aposentadorias (no caso dos velhos), de benefícios de prestação continuada (de deficientes), de auxílio-doença (dos que apresentam problemas cardíacos, pneumológicos ou diabetes), de auxílio-desemprego e de pagamento do bolsa-família.

Nessa contabilidade perversa, cada morto dependente de benefício social é uma moeda poupada no futuro. Essa distorcida profilaxia social associada a ambição econômica marcou o nazismo e demarca também a indigente concepção do capitalismo como um modelo de seleção natural. E é nela que se apoia o ideia de passar logo pela pandemia, deixando morrer depressa o mais vulneráveis.

Para comentar esse texto, use por favor este link.
Este texto foi atualizado para inclusão do link “A epidemia de paradoxos”, do blog Ora Essa!

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