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Quem foi Dona Solange, a maior censora de artes do país antes de Bolsonaro

Ex-diretora de órgão da ditadura virou música de Léo Jaime e morreu no ostracismo em 2013, no interior de SP; ‘Estou anacrônica’, disse na última entrevista

O presidente Jair Bolsonaro negou neste final de semana, contra todas as evidências, que seu governo esteja promovendo censura, ao ser questionado sobre mudanças no apoio a projetos culturais pela Caixa e pelo Banco do Brasil, que passaram a fazer uma espécie de investigação do caráter ideológico das obras e dos posicionamentos dos artistas.

“A gente não vai perseguir ninguém, mas o Brasil mudou. Com o dinheiro público não veremos mais certo tipo de obra por aí. Isso não é censura. Isso é preservar os valores cristãos, tratar com respeito a nossa juventude, reconhecer a família como uma unidade que tem que ser saudável para o bem de todos”, disse.

Não é o que pensam boa parte dos artistas e até o TCU (Tribunal de Contas da União), que deve investigar o caso. Também não é a primeira vez que Bolsonaro flerta com a censura: já mandou retirar uma campanha do Banco do Brasil da TV porque tinha a diversidade como foco e disse que queria alguém evangélico para dirigir a Ancine (Agência Nacional de Cinema) e, com isso, impedir filmes como Bruna Surfistinha –  agência chegou a suspender um edital para filmes LGBT justamente por causa da temática. Com as benças do chanceler Ernesto Araújo, a embaixada brasileira no Uruguai também vetou um documentário sobre Chico Buarque, desafeto do presidente.

A postura de Bolsonaro traz de volta o fantasma da censura e a memória de Solange Hernandes – cujo nome completo era Solange Maria Chaves Teixeira Hernandes. Ela entrou para a história como a censora mais célebre do país ao comandar entre 1981 e 1984 uma máquina de vetos e cortes em produções artísticas, quando chefiou a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), já no crepúsculo da ditadura militar. Rigorosa contra tudo o que, na visão dela, atentava contra a moral, os bons costumes e a ordem política, passou a tesoura em milhares de obras artísticas no período. Foi até “homenageada” em letra de música de Léo Jaime (Solange, uma releitura de So Lonely, da banda inglesa The Police).

Documento assinado por Solange Hernandes classifica o filme ‘Dona Flor e seus Dois Maridos’ como proibido para menores de 18 anos

Documento assinado por Solange Hernandes classifica o filme ‘Dona Flor e seus Dois Maridos’ como proibido para menores de 18 anos (Reprodução/Reprodução)

Sua intervenção mais polêmica foi a censura ao filme Pra Frente, Brasil, dirigido por Roberto Farias, que ela vetou por considerar um panfleto contra o regime vigente à época. A produção foi uma das primeiras a expor abertamente a tortura praticada pelos militares. A Justiça acabou liberando o filme em 1983, mas o episódio acabou provocando a demissão de Celso Amorim, que foi ministro nos governos Dilma e Lula, mas à época presidia a Embrafilme e autorizou o financiamento público do filme.

Dona Solange morreu no ostracismo em 2013, aos 75 anos, mas três anos antes havia sido localizada pelo jornal Correio Braziliense morando em um condomínio de classe média alta em Ribeirão Preto (SP), onde poucos conheciam seu passado. Por telefone, falou por apenas nove minutos com a reportagem. “Estou anacrônica, meu caro repórter”, disse a ex-delegada da Polícia Federal.

Como se vê, no entanto, dona Solange, como ficou imortalizada, não estaria tão anacrônica nos dias atuais. Com um pouco de sorte, voltaria até a trabalhar no governo federal.


Veja a letra da música de Léo Jaime:

Solange

Eu tinha tanto pra dizer
Metade eu tive que esquecer
E quando eu tento escrever
Seu nome vem me interromper
Eu tento me esparramar
E você quer me esconder
Eu já não posso nem cantar
Meus dentes rangem por você
Solange, Solange
É o fim Solange
Eu penso que vai tudo bem
E você vem me reprovar
E eu já não posso nem pensar
Que um dia ainda eu vou me vingar
Você é bem capaz de achar
Que o que eu mais gosto de fazer
Talvez só dê pra liberar
Com cortes pra depois do altar
Solange, Solange, Solange
É o fim, Solange
Solange, ah! Ah! Solange
Pára de me censolange
Ye ye ye
I feel so lonely
Ye ye ye
So so so, lan lan lan
Solange, Solange, Solange
É o fim Solange

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