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Quais são as ‘corporações’ atacadas em texto compartilhado por Bolsonaro? 

Uma coisa é o que diz a mensagem de WhatsApp; outra é o que enxerga o presidente ao repassá-la

O texto compartilhado pelo presidente Jair Bolsonaro no WhatsApp nesta sexta-feira, 17, escrito pelo professor de finanças Paulo Portinho, sobre o quanto o país é “ingovernável” sem a realização de “conchavos”, cita nove vezes a palavra “corporações” como obstáculo para que a vontade da população seja contemplada.

Quais são elas? Há, possivelmente, duas respostas. Uma: o que o professor nominou ao publicar o post. Outra, um tanto diferente: aquilo que o presidente se refere ao compartilhar o mesmo texto.

Na fala do professor, o “Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público”. Seriam elas: “políticos, servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder”, que o autor chama de “os verdadeiros donos do orçamento”.

Tomado o curto histórico de quatro meses e meio de governo, conclui-se que o presidente enxerga esses grupos com nitidez seletiva. Os políticos se queixam o tempo todo, mas há em vista a promessa de emendas milionárias para acalmar os ânimos. Sobre os empresários, o maior dos atritos são as ameaças de Paulo Guedes sobre o Sistema S.

Já os sindicatos contêm o maior volume de críticas do presidente. Nem ele, nem o ministro Paulo Guedes convocaram as entidades de trabalhadores para discutir a reforma da Previdência, como era praxe em outras gestões.

Sindicatos de servidores também não foram chamados a opinar sobre a proposta que afeta a categoria e tira seu poder de articulação, em um enfraquecimento alinhado ao discurso dos tempos de eleições. O tratamento dado aos sindicalistas provocou, por sinal, uma situação inédita: dez centrais sindicais fizeram juntas um ato contra a reforma no dia 1º de Maio – até as arqui-inimigas CUT e Força Sindical se deram as mãos. Uma reação proporcional à clareza da ação.

 


Leia na íntegra o texto compartilhado por Bolsonaro:

Temos muito para agradecer a Bolsonaro.

Bastaram 5 meses de um governo atípico, “sem jeito” com o Congresso e de comunicação amadora para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado de acordo com o interesse dos eleitores. Sejam eles de esquerda ou de direita.

Desde a tal compra de votos para a reeleição, os conchavos para a privatização, o mensalão, o petrolão e o tal “presidencialismo de coalizão”, o Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público.

Não só políticos, mas servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder. Os verdadeiros donos do orçamento. As lagostas do STF [Supremo Tribunal Federal] e os espumantes com quatro prêmios internacionais são só a face gourmet do nosso absolutismo orçamentário.

Todos nós sabíamos disso, mas queríamos acreditar que era só um efeito de determinado governo corrupto ou cooptado. Na próxima eleição, tudo poderia mudar. Infelizmente não era isso, não era pontual. Bolsonaro provou que o Brasil, fora desses conchavos, é ingovernável.

Descobrimos que não existe nenhum compromisso de campanha que pode ser cumprido sem que as corporações deem suas bênçãos. Sempre a contragosto.

Nem uma simples redução do número de ministérios pode ser feita. Corremos o risco de uma MP [Medida Provisória] caducar e o Brasil ser obrigado a ter 29 ministérios e voltar para a estrutura do [ex-presidente Michel] Temer.

Isso é do interesse de quem? Qual é o propósito de o Congresso ter que aprovar a estrutura do executivo, que é exclusivamente do interesse operacional deste último, além de ser promessa de campanha?

Querem, na verdade, é manter nichos de controle sobre o orçamento para indicar os ministros que vão permitir sangrar estes recursos para objetivos não republicanos. Historinha com mais de 500 anos por aqui.

Que poder, de fato, tem o presidente do Brasil? Até o momento, como todas as suas ações foram ou serão questionadas no Congresso e na Justiça, apostaria que o presidente não serve para nada, exceto para organizar o governo no interesse das corporações. Fora isso, não governa.

Se não negocia com o Congresso, é amador e não sabe fazer política. Se negocia, sucumbiu à velha política. O que resta, se 100% dos caminhos estão errados na visão dos “ana(lfabe)listas políticos”?

A continuar tudo como está, as corporações vão comandar o governo Bolsonaro na marra e aprovar o mínimo para que o Brasil não quebre, apenas para continuarem mantendo seus privilégios.

O moribundo-Brasil será mantido vivo por aparelhos para que os privilegiados continuem mamando. É fato inegável. Está assim há 519 anos, morto, mas procriando. Foi assim, provavelmente continuará assim.

Antes de Bolsonaro vivíamos em um cativeiro, sequestrados pelas corporações, mas tínhamos a falsa impressão de que nossos representantes eleitos tinham efetivo poder de apresentar suas agendas.

Era falso, FHC [Fernando Henrique Cardoso] foi reeleito prometendo segurar o dólar e soltou-o 2 meses depois, Lula foi eleito criticando a política de FHC e nomeou um presidente do Bank Boston, fez reforma da Previdência e aumentou os juros, Dilma foi eleita criticando o neoliberalismo e indicou Joaquim Levy. Tudo para manter o cadáver procriando por múltiplos de 4 anos.

Agora, como a agenda de Bolsonaro não é do interesse de praticamente nenhuma corporação (pelo jeito nem dos militares), o sequestro fica mais evidente e o cárcere começa a se mostrar sufocante.

Na hipótese mais provável, o governo será desidratado até morrer de inanição, com vitória para as corporações. Que sempre venceram. Daremos adeus Moro, Mansueto e Guedes. Estão atrapalhando as corporações, não terão lugar por muito tempo.

Na pior hipótese ficamos ingovernáveis e os agentes econômicos, internos e externos, desistem do Brasil. Teremos um orçamento destruído, aumentando o desemprego, a inflação e com calotes generalizados. Perfeitamente plausível. Claramente possível.

A hipótese nuclear é uma ruptura institucional irreversível, com desfecho imprevisível. É o Brasil sendo zerado, sem direito para ninguém e sem dinheiro para nada. Não se sabe como será reconstruído. Não é impossível, basta olhar para a Argentina e para a Venezuela. A economia destes países não é funcional. Podemos chegar lá, está longe de ser impossível.

Agradeçamos a Bolsonaro, pois em menos de 5 meses provou de forma inequívoca que o Brasil só é governável se atender o interesse das corporações. Nunca será governável para atender ao interesse dos eleitores. Quaisquer eleitores. Tenho certeza que esquerdistas não votaram em Dilma para Joaquim Levy ser indicado ministro. Foi o que aconteceu, pois precisavam manter o cadáver Brasil procriando. Sem controle do orçamento, as corporações morrem.

O Brasil está disfuncional. Como nunca antes. Bolsonaro não é culpado pela disfuncionalidade, pois não destruiu nada, aliás, até agora não fez nada de fato, não aprovou nada, só tentou e fracassou. Ele é só um óculos com grau certo, para vermos que o rei sempre esteve nu, e é horroroso.

Infelizmente o diagnóstico racional é claro: “Sell”.

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