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Pazuello garantiu apoio logístico a empresa antes de faltar oxigênio no AM

Gerente da White Martins, fornecedora do insumo, teve café da manhã com o ministro três dias antes de rede hospitalar entrar em colapso no estado

Por Eduardo Gonçalves 23 Maio 2021, 11h07

Em depoimento ao Ministério Público Federal do Amazonas, o gerente de negócios da White Martins Petrônio Bastos contou detalhes sobre a primeira reunião que teve com o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em 11 de janeiro deste ano, para falar sobre o risco de desabastecimento de oxigênio no estado, que de fato aconteceria três dias depois. O encontro se deu em um café da manhã na casa do ex-ministro, em Manaus.

“Passamos [a ele] a dificuldade do volume de oxigênio, o possível colapso, precisava saber o que vinha pela frente. Foi quando ele disse que a questão do apoio logístico não teria problema nenhum, que seria disponibilizado”, disse o gerente em depoimento obtido por VEJA. Apesar do otimismo de Pazuello, diversos hospitais registraram falta do insumo básico a partir do dia 14 de janeiro, com relatos de pacientes morrendo por asfixia e uma corrida desenfreada para conseguir cilindros de oxigênio pela cidade.

Segundo Bastos, o então ministro ainda lhe passou o contato do seu auxiliar direto, Airton Soligo, conhecido como Cascavel, para resolver qualquer tipo de problema que tivessem com o transporte. A Força Aérea Brasileira (FAB) já vinha atuando desde 8 de janeiro para levar oxigênio de Belém a Manaus pelo modal aéreo. As ações, no entanto, não foram suficientes para sanar a alta demanda pelo insumo nos hospitais.

  • No depoimento à Procuradoria, feito na condição de testemunha, o gerente da White Martins ainda relatou que vinha “reforçando” desde o dia 24 de dezembro de 2020 que precisava da previsão futura de consumo do oxigênio à medida em que as autoridades estavam abrindo a cada dia mais leitos de UTI. Também destacou que cabia ao governo do Estado — comandado por Wilson Lima (PSC-AM) —  fazer essa estimativa,  o que só começou a ser feito a partir do dia 12 de janeiro, quando o colapso já era irreversível diante dos problemas logísticos de Manaus.
    “Nós não tínhamos essa informação”.

    Em depoimento à mesma Procuradoria, desta vez na condição de investigado, o secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campêllo, explicou que a White Martins não havia sido clara sobre a possibilidade de desabastecimento nos hospitais. Segundo ele, o problema que a empresa havia lhe alertado era sobre a logística de cilindros e não sobre o risco de fornecimento. As declarações de Pazuello vão na mesma linha.

    Campêllo, que é engenheiro de formação, ainda fez um desabafo ao dizer que, para ele, “era uma “novidade todos os assuntos sobre oxigênio a partir do dia 7 de janeiro”. Até aquela data, o governo estadual e federal vinham trabalhando com uma lógica de expansão da rede hospitalar, já que não paravam de aparecer novos casos de Covid-19. A ação precisou ser interrompida quando eles perceberam que não havia oxigênio suficiente nem para as vagas de UTI que já estavam disponíveis. Infelizmente, era tarde demais.

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