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Morde e assopra: as vezes em que Mourão ‘passou pano’ para Bolsonaro

Vice costuma discordar com frequência do presidente, mas também atua para contemporizar declarações polêmicas dadas por ele

Por Redação Atualizado em 12 nov 2020, 12h21 - Publicado em 12 nov 2020, 11h59

Não foram poucas as vezes em que o vice-presidente Hamilton Mourão provocou estresse no governo com declarações que iam na contramão de posicionamentos manifestados pelo presidente Jair Bolsonaro. No último episódio, no final de outubro, Mourão afirmou a VEJA que a administração federal iria comprar o imunizante Coronavac, produzido com insumos chineses em São Paulo, para lançar uma campanha de vacinação nacional contra a Covid-19, contrariando declarações recentes do presidente que iam em outra direção. Mas nem só de caneladas é feita a relação entre os dois. Também é papel do vice atuar como um bombeiro para contemporizar declarações extemporâneas de Bolsonaro.

Os últimos panos quentes de Mourão foram destinados ao discurso em que Bolsonaro enfrentou o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, ao afirmar que “quando acaba a saliva, tem que ter pólvora”. O presidente fazia alusão às barreiras comerciais que Biden sugeriu levantar contra o Brasil caso os incêndios na Amazônia não fossem controlados. “Isso aí tudo é figura de retórica”, disse o vice, que qualificou a fala de Bolsonaro de um “aforismo antigo”.

Em setembro deste ano, Mourão também atuou para amenizar a repercussão negativa do pronunciamento de Bolsonaro na ONU (Organização das Nações Unidas), quando o presidente, ao tratar da questão ambiental, não reconheceu os erros do Brasil na área e disse que o país era vítima de “uma das mais brutais campanhas de desinformação” sobre o tema.  O vice-presidente, que é um ferrenho defensor das políticas do governo federal, “traduziu” a queixa do presidente. “Que existe uma campanha de desinformação, existe. Isso aí eu já comentei, e compete a nós contrapormos. Agora, eu sempre deixo claro que a contraposição tem que se dar por duas vertentes: uma vertente de uma informação qualificada e a segunda vertente é de impedir que ilegalidades ocorram para não dar margem a esse tipo de pressão”, declarou.

Também na questão ambiental, o vice, embora tenha aberto os canais de diálogo com os governadores e ONGs para tratar de desmatamento – que bateu recordes em 2020 -, sempre dá declarações no sentido de minimizar o problema. “Recordes acontecem, né?”, disse ele em setembro. Em outra ocasião, Mourão afirmou que os satélites que monitoram o fogo em áreas de preservação ambiental apontam pedras como focos de calor. “Não se deixem levar por narrativas tiradas da cartola, como o coelho daquele mágico”, declarou em outro episódio.

Durante a pandemia de Covid-19, Mourão também não chegou a minimizar a gravidade da doença como fez Bolsonaro em várias ocasiões, mas declarou que o governo federal “lidou muito bem” com o novo coronavírus e que no Brasil “está tudo ok”, apesar dos quase 150 mil mortos que o país registrava no dia em que ele concedeu entrevista a um veículo de imprensa alemão, o DW. Os dados mais atualizados sobre a pandemia apontam que mais de 160 mil pessoas já morreram em função do vírus.

Embora tenha opiniões convergentes com Bolsonaro em relação à ditadura militar, quando o país vivia um clima de tensão institucional, Mourão se prontificou a afirmar que as Forças Armadas não embarcariam numa aventura golpista. Quando Bolsonaro afirmou que “democracia só existe se as Forças Armadas quiserem”, por exemplo, o vice se apressou em esclarecer que o presidente estava se referindo a regimes ditatoriais, como Venezuela e Cuba, e da importância dos militares para manter um regime democrático. Em contrapartida, Mourão é declaradamente fã do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos ídolos de Bolsonaro. Nas palavras de Mourão, Ustra era um homem de “honra” e que “respeitava os direitos humanos de seus subordinados”. Ustra, que chefiou o órgão de repressão e inteligência da ditadura (DOI-CODI) entre 1970 e 1974, foi o primeiro militar condenado por crimes cometidos durante o regime.

Neste jogo de “morde e assopra”, Mourão poderá ficar sem a cadeira de vice-presidente na chapa que Bolsonaro lançará à reeleição em 2022. Entre os nomes cotados para ser o vice bolsonarista, o que desponta com maior força no momento é o da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Na mesma entrevista a VEJA em que defendeu a compra da CoronaVac pelo governo federal, Mourão admitiu que nas próximas eleições poderá se candidatar ao Senado caso seja preterido pelo presidente.

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