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Governo Jair Bolsonaro tem o pior RH do mundo

Passagem fugaz de Decotelli pelo MEC é um exemplo do entra-e-sai frenético na gestão, que já teve outros currículos inflados e nomeado que não durou um dia

Por Da Redação - Atualizado em 30 Jun 2020, 19h17 - Publicado em 30 Jun 2020, 19h07

Uma coisa é certa no governo Jair Bolsonaro: a política de contratações e nomeações é um retumbante fracasso. Em menos de dois anos de governo, as entradas e saídas de assessores, diretores, secretários, presidentes de órgãos e empresas estatais e até ministros se sucedem numa velocidade difícil de acompanhar.

O último da lista foi o ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, exonerado nesta terça-feira, 30, cinco dias após ter sido nomeado pelo presidente. Sua cerimônia de posse, que estava marcada para hoje, nem chegou a acontecer.

O ministro caiu por conta de ao menos quatro irregularidades detectadas em seu currículo: duas titulações que não possuía, um mestrado com suspeita de plágio e a atividade como professor de uma faculdade que nunca exerceu – em todos os casos, as instituições acadêmicas envolvidas denunciaram a fraude.

Inflar o currículo não chega a ser um problema incomum no atual governo. Já em fevereiro de 2019, o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) foi obrigado a desmentir que tivesse mestrado em direito público na Universidade de Yale, nos EUA, depois que a imprensa revelou que isso nunca ocorrera. Em nota, ele atribuiu o equívoco a sua assessoria de imprensa.

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Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) exagerou: se apresentou como advogada e mestre em educação, em direito constitucional e em direito da família. Depois, admitiu que nunca obteve título acadêmico nenhum e, evangélica, disse que havia obtido os títulos que enumerara no “ensino bíblico”. “Diferentemente do mestre secular, que precisa ir a uma universidade para fazer mestrado, nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico”, disse ao jornal Folha de S. Paulo.

Já o currículo do primeiro ocupante da pasta da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, tinha 22 erros de informação, segundo levantamento do site Nexo. Entre os erros, havia até livros que não eram de sua autoria e artigos publicados em periódicos que não eram científicos.

Seu sucessor, Abraham Weintraub, também passou por isso, mas por erro do seu novo patrão, o presidente Jair Bolsonaro, que nas redes sociais o anunciou como portador do título de doutorado, coisa que ele não tinha. O próprio presidente corrigiu a informação.

Twitter/Reprodução

Uma empresa internacional de busca de executivos, que verifica todas as informações incluídas pelos candidatos em seus currículos, disse a VEJA que tem “percebido no mercado brasileiro nos últimos anos, talvez em função do alto índice de desemprego e aumento da competitividade, uma tendência dos profissionais a exagerarem na formação acadêmica, em suas especializações ou dizendo que tem fluência em idiomas”, entre outras coisas.

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Se serve de consolo para Decotelli, também não é incomum um ministro deixar o cargo no atual governo: dos 22 que tomaram posse com Bolsonaro, nove não estão mais à frente das pastas. Mas nenhum ministério chegou ao status do MEC, que irá para o seu quarto titular em um ano e meio de governo. Pasta igualmente estratégica, o Ministério da Saúde foi outro com rotatividade digna de nota: em menos de um mês, dois ministros – Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich – pediram o boné em meio à pandemia do novo coronavírus, menos pela dificuldade em combater a doença e mais pela quase impossibilidade de se entender com o presidente.

Decotelli não inaugurou nada na pasta da Educação: ali, a balbúrdia no RH é uma marca desde o começo da atual gestão. O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), que administra um orçamento de R$ 52 bilhões, por exemplo, já teve quatro presidentes, entre eles o próprio Decotelli, que ficou na função de fevereiro a agosto de 2019. Outro órgão estratégico do ministério, o Inep, que realiza o Enem, também já teve quatro ocupantes – um deles, Elmer Vizenci, ficou um mês na função.

No frenético entra-e-sai do governo, no entanto, ninguém supera o ocorrido com Dante Mantovani, que foi nomeado e demitido duas vezes como presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes), vinculado à Secretaria Especial de Cultura (que também está com seu terceiro titular, agora com o ator Mário Frias, ex-Malhação).

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Na segunda vez em que foi demitido, Mantovani teve uma passagem bem mais rápida que a de Decotelli: no dia 5 de maio, ele foi nomeado de manhã pelo presidente Bolsonaro e teve a sua nomeação cancelada no início da noite. Nem ele entendeu: “Não sei, tem que ver com quem me demitiu”, disse a uma emissora de TV.

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