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Em queda, Russomanno sofre com trapalhadas e conflitos em sua campanha

Candidato do Republicanos que sempre evitou se posicionar ideologicamente agora conta com os grupos bolsonaristas mais radicais para evitar desastre

Por Eduardo Gonçalves Atualizado em 6 nov 2020, 18h55 - Publicado em 6 nov 2020, 17h35

Desde o início da corrida eleitoral, a campanha do candidato Celso Russomanno (Republicanos) é marcada por trapalhadas e conflitos internos. Em queda vertiginosa nas pesquisas eleitorais, o deputado federal, que já tentou duas vezes ser prefeito e em nenhumas delas chegou ao segundo turno apesar de — como na atual disputa — ter largado na frente, agora sofre com a instabilidade nas estratégias de comunicação. Uma das dúvidas desde o início da campanha é se ele deve colar ou não sua imagem à do presidente Jair Bolsonaro. Nos últimos dias, aumentou também a desconfiança de boicote interno do seu próprio partido (falta de apoio de colegas da sigla). Russomanno ainda contribuiu para o quadro negativo com as suas tradicionais escorregadas retóricas — a desta sexta-feira, dia 6, ocorreu quando, ao ser perguntado sobre o Dia da Consciência Negra, respondeu que foi “criado por uma mãe de leite, negra”, o que gerou protestos de entidades do movimento negro.

As confusões em série ocorreram antes da largada da corrida eleitoral. No meio do ano, as lideranças do Republicanos e do PSDB chegaram a se reunir para formar uma composição em torno da candidatura do prefeito Bruno Covas (PSDB), que tenta a reeleição e lidera isolado as pesquisas eleitorais. Não vingou, mas o Republicanos manteve a boa relação com os tucanos e continua até hoje fazendo parte da base de apoio do governador João Doria (PSDB) – o vice-líder do governo na Assembleia Legislativa, por exemplo, é o deputado Wellington Moura, do Republicanos. Apesar disso, Russomanno é hoje um dos postulantes que mais atacam o que chama de candidato “Covas-Doria”. “Cadê o Doria? Será que o prefeito esconde o governador com medo de atrapalhar”, contesta uma de suas propagandas eleitorais.

Os candidatos a vereador pelo Republicanos também não se entusiasmaram com a candidatura de Russomanno. Pouquíssimos têm postado material com o deputado federal. O vereador Souza Santos, por exemplo, que tenta a reeleição, ainda postou nesta semana um vídeo com o título “foco, força e fé” — coincidência ou não, este é o mesmo slogan da campanha de Bruno Covas. Na parte financeira, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), recebeu quase o dobro de fundo eleitoral (cerca de 2 milhões de reais) do que Russomanno (cerca de 1,2 milhão).

Em agosto, o deputado e apresentador de TV disse que não aceitaria financiamento público de campanha, mas desistiu da ideia ao ver que perderia competitividade perante os adversários. Este não foi o único vai e vem de Russomanno. No assunto das vacinas para Covid-19, chegou a dizer num primeiro momento que não via problema em ela ser a chinesa Coronavac — falou que “precisa só passar pela Anvisa”. Depois, mais alinhado com o discurso bolsonarista, passou a questionar os testes, dizendo que o produto deveria ser testado inicialmente na China e em “pessoas doentes” — o que não faz sentido do ponto de vista médico, já que o imunizante é usado para prevenir a doença e não curá-la.

Logo quando começou a cair nas pesquisas, Russomanno reduziu também as referências ao governo Bolsonaro em seu material de campanha. Nas últimas semana, no entanto, diante da falta de apoio do próprio partido, voltou a apostar com toda a força na aproximação com o presidente. Em vídeo publicado em suas redes, Bolsonaro aparece ao seu lado lembrando das bandeiras que têm em comum — entre elas, a defesa da família e da liberdade econômica.

Tratado inicialmente com desconfiança pelos apoiadores mais radicais do presidente, Russomanno agora depende da militância desses grupos, sobretudo nas redes sociais, para conter a queda nas pesquisas. O deputado estadual Gil Diniz, conhecido como Carteiro Reaça, fez um post apelando aos seus eleitores para que sejam “pragmáticos” e tentem tirar o candidato Guilherme Boulos (PSOL) do segundo turno. Já o empresário Otávio Fakhoury, que patrocina atos pró-Bolsonaro pelo Brasil, depositou 110.000 reais na campanha do deputado. O curioso é que, desde o início da campanha, Russomanno, que já declarou apoio à petista Dilma Rousseff no passado, evita se posicionar ideologicamente como sendo de direita ou esquerda. Agora, mais do que nunca, ele precisa desse apoio ideológico para ir ao segundo turno.

Datafolha

Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira, 5, mostrou que Russomanno caiu quatro pontos em relação ao levantamento anterior, foi a 16% das intenções de voto, e perdeu a condição de empate técnico com Covas, que se tornou o líder isolado na disputa pela prefeitura, com 28%. Para piorar, Russomanno ficou empatado dentro da margem de erro (de três pontos percentuais) com Boulos (14%) e Márcio França, do PSB (13%) e corre o risco de nem ir ao segundo turno.

 

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