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Contarato: Quem melhor se contrapuser a Bolsonaro terá mais chance em 2022

Pretendido por três partidos para o ano que vem, senador, que é gay, diz que políticos hesitam em pautas progressistas porque temem eleitorado conservador

Por Leonardo Lellis Atualizado em 12 out 2021, 13h20 - Publicado em 12 out 2021, 07h00

Político em ascensão no Congresso Nacional, membro atuante da CPI da Pandemia no Senado e cortejado por ao menos três partidos , o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) disse, em entrevista a VEJA, que acredita que irá se sair melhor nas disputas eleitorais em 2022 quem conseguir se contrapor ao presidente Jair Bolsonaro. Crítico da expressão “terceira via”, ele flerta com PT, PSB e PDT e pode disputar o governo do Espírito Santo no ano que vem.

Na CPI, Contarato protagonizou há alguns dias um momento tenso ao confrontar o empresário bolsonarista Otavio Fakhoury por  uma manifestação homofóbica a seu respeito. Gay, casado com o fisioterapeuta Rodrigo Groberio, com quem tem os filhos Gabriel, 7, e Mariana, 2, o ex-delegado de trânsito defendeu que a solidariedade recebida se transforme em apoio a projetos de lei para garantir direitos da população LGBTQIA+.

O senhor recebeu várias manifestações de solidariedade após o confronto com o empresário Otávio Fakhoury na CPI da Pandemia. Viu sinceridade em todas elas? Sempre me trataram com total deferência, mas é óbvio que algumas manifestações são “pro forma”. Na reunião de líderes após a sessão da CPI, eu agradeci a todos os gestos de solidariedade, mas ressaltei que isso tem que vir acompanhado de mudanças de comportamento, aprovando projetos de lei que garantam direitos que já foram reconhecidos pelo Judiciário. Se a população LGBTQIA+ tem direito ao casamento, ao nome social, a criminalização da homofobia, doar sangue, recebimento de pensão, esses direitos se deram pela via inadequada.

O que falta para o Legislativo promover essas mudanças? Boa parte dos políticos têm uma preocupação com a base eleitoral deles. Democracia não é lutar pelos interesses da maioria, mas é fazer que as minorias tenham efetivadas aquelas garantias de que todos somos iguais perante a lei. Por não ter uma adesão de sua base eleitoral, é mais cômodo para o político não enfrentar estes temas.

O que vai ser decisivo nas eleições de 2022? Quem conseguir se contrapor melhor ao discurso do Bolsonaro tem possibilidades de se sair melhor. Há uma má administração, que cortou recursos da saúde, das pesquisas e fez um aporte no Ministério da Defesa. Na Educação tivemos um ministro que queria que os alunos filmassem o professor dentro de sala de aula, outro queria tirar recursos de cursos de sociologia e filosofia, um não assumiu por problemas no currículo e o atual falou atrocidades sobre alunos com deficiência. O desmonte na área ambiental impacta as relações exteriores. Isso vai ficar muito visível, agravado pelo comportamento do presidente na pandemia.

Vê espaço para uma terceira via? Eu não gosto desse rótulo, com todo respeito. Esta é uma decisão soberana dos partidos que têm, primeiro, que construir um projeto de país e só depois analisar os nomes. É a população que tem que dizer. A CPI mostrou que nem todos os políticos estão no mesmo nível.

Há quem defenda, inclusive na esquerda, que as pautas identitárias e de diversidade não devam ter espaço em eleições majoritárias porque a população é conservadora. O que o senhor acha? É a mesma coisa no Congresso quando você me pergunta porque não se avança nessas pautas. O político fica amedrontado com a reação do eleitorado e fica em cima de um fundamento religioso ou comportamental para justificar a sua inoperância no processo legislativo. A mesma coisa acontece com um candidato a um cargo no Executivo. É como se fosse um tabu.

Como mudar isso? Platão falava que a sabedoria está na repetição. Eu acho que quanto mais a gente falar e discutir, na mesa de bar, nos espaços públicos, dentro de casa, esse processo de transição vai se tornando natural. O caminho é debater e fazer este enfrentamento, tendo a altivez de, às vezes, fazer o que fiz na CPI, me expondo na tentativa de diminuir a incidência daquele preconceito.

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Dia Internacional do Orgulho LGBTI
As cores do arco-íris foram projetadas no edifício do Congresso no Dia Internacional do Orgulho LGBTI, por iniciativa do senador Fabiano Contarato (Rede-ES) Roque de Sá/Agência Senado

O senhor tenta proteger seus filhos de alguma forma dos ataques que recebe? Tudo é conversado, da mesma forma que temos que explicar que eles têm dois pais, que eu sou branco e eles são negros — e eu quero inseri-los em diferentes espaços sociais, onde se vejam representados. Uma vez meu filho de sete anos pediu para irmos em um shopping de Vitória e eu tive que explicar: “No trabalho do papai tem pessoas que gostam de mim e que não gostam, assim como você tem coleguinhas que podem gostar de você ou não gostar. Isso acontece na vida. Mas se alguém vier ofender o papai, nós voltamos pra casa”. Aquilo me deu um aperto…

O que mudou para a população LGBTQIA+ desde o seu ingresso na Polícia Civil? Não mudou muita coisa e não temos o que comemorar. Se hoje para um jovem LGBTQIA+ é difícil, em 1992 também era, por isso que a gente tem que ter a humildade de agradecer a todos aqueles que pagaram com a vida e a integridade física para que eu pudesse estar no parlamento e tivéssemos direitos. Houve um movimento de melhora, mas eu me assustei com o atual governo, com um chefe do Executivo que faz com que pessoas sintam legitimadas a terem um comportamento preconceituoso. Aquilo que estava guardado agora está exposto.

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), afirmou, e recebeu algumas críticas por isso, que é um governador gay, não um gay governador. O senhor concorda com esta distinção? Eu entendo que ele queria falar no sentido de que não importa a orientação sexual, porque ela não define a competência, e que a avaliação que deve ser feita pelo trabalho que ele tem feito.

Se fosse para ter um único projeto aprovado, qual seria? Tenho muito orgulho de ter conseguido aprovar um projeto que era uma bandeira de quando eu era delegado de trânsito. Eu consegui alterar o Código de Trânsito para que no caso de homicídio, se o motorista estiver bêbado, não cabe mais a substituição da pena de prisão por restritiva de direitos. Era uma coisa que eu pensava: como vou explicar para as famílias? Outra coisa que tenho lutado é para caracterizar como crime hediondo os desvios de verba pública.

Esse punitivismo não confronta com a pauta progressista? Eu não vejo dessa forma. A gente tem que tratar igualmente os iguais na medida que eles se desigualam. Tem que ter esse tratamento diferenciado. Quando um político desvia dinheiro da assistência social, ele está matando sonhos. É muito grave superlotar as cadeias de pobres, negros e semianalfabetos sendo que os crimes de maior prejuízo são praticados contra a ordem tributária, sonegação fiscal e não se vê essas pessoas sendo punidas.

O senhor está sendo cortejado por vários partidos. Para onde vai? Se Deus quiser eu vou definir isso logo. A minha saída da Rede já é certa e me vejo mais em partidos progressistas. PSB, PDT e PT são os partidos com os quais eu mais me identifico e irei migrar para um desses.

Por que sair da Rede? Eu acho um partido fantástico. Tenho um relacionamento excelente com o Randolfe [Rodrigues], a Heloísa [Helena], a Marina Silva. Mas é uma questão pragmática. A Rede não alcançou a cláusula de barreira e tenho dificuldade para ocupar determinados espaços. Quando se está num partido com maior representatividade, há maior possibilidade de melhor atuação, de pegar a relatoria de projetos importantes, integrar comissões e assim sucessivamente.

 

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