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Maílson da Nóbrega Por Coluna Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história

Voto impresso: ineficiente, mas bom para ser comprado

O impresso comprovaria que o eleitor votou em seu distrito, assegurando ao comprador do voto o exercício do compromisso assumido com a venda do sufrágio

Por Maílson da Nóbrega Atualizado em 7 jan 2021, 18h40 - Publicado em 7 jan 2021, 17h10

Muitos têm buscado interpretar a insistência com que o presidente Jair Bolsonaro defende a instituição do voto impresso. Difícil explicar depois de quase um quarto de século do voto eletrônico no Brasil, até agora sem nenhum indício de fraude. Ao contrário, especialistas no Brasil e no exterior atestam a segurança do sistema, cuja confiabilidade tem permitido que outros países o adotem no exercício de um dos mais relevantes direitos fundamentais da democracia. O Brasil exporta tecnologia nesse campo.

Uma interpretação poderia ser o desejo de Bolsonaro de criar uma resistência a eventual derrota eleitoral em 2022, quando alegaria fraudes para recusar-se a reconhecer os seus resultados. Seria a repetição da estratégia do seu ídolo, o presidente americano, Donald Trump. Sem provas, Trump insistiu na tese insustentável de que teria sido eleito em novembro último, mas fraudadores a serviço do Partido Democrata o teriam privado de uma vitória certa. Como se sabe, incitou seus apoiadores a invadir o Congresso, o que resultou em ataque inédito à democracia americana, perplexidade nos EUA e em outros países ricos e morte de quatro dos invasores. Apesar desse fracasso, Bolsonaro mantém sua insana acusação ao suposto potencial de fraude do voto eletrônico no país. 

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    Tudo indica que Bolsonaro enfrentará resistências para seu projeto, em oposição à maioria dos brasileiros que apoiam o sistema. Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em dezembro último mostrou que 73% dos brasileiros confiam no voto eletrônico. Mesmo que o Congresso viesse a aprovar a proposta, ela poderia não ser aceita pelo Judiciário, que já se manifestou contra a ideia de imprimir o voto.

    O voto impresso criaria custos e ineficiências nas eleições, mas teria uma função, a de incentivar a compra de votos. É conhecido o “voto de cabresto”, uma prática muito comum nas regiões menos desenvolvidas do país em tempos passados. Sabe-se a história. Quando o voto era exercido mediante uma papeleta contendo o nome impresso de candidatos, os coronéis do interior entregavam essa papeleta ao eleitor, que se comprometia a depositá-la na urna. Depois de votar, ele voltava à residência do coronel, mostrava o título assinado pelos mesários das zonas eleitorais. Era a prova que o habilitava a receber o pagamento, em dinheiro, do compromisso cumprido. 

    Havia, lógico, um potencial de fraude contra o coronel, pois o eleitor poderia, no percurso para a sala de votação, receber papeletas de outros candidatos. O coronel gastava dinheiro em vão. Com o voto impresso defendido por Bolsonaro, essa pequena fraude se tornaria mais difícil, pois o documento expelido pela impressora conteria os dados do local de votação. Restaria a hipótese de o eleitor teclar o nome de outros candidatos que não o preferido do coronel. Seria, contudo, mais difícil enganar o comprador. O Brasil retrocederia décadas.

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