Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês
Maílson da Nóbrega Por Coluna Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história

Mercado não fica nervosinho; reage a riscos 

Quedas no mercado acionário e aumento na cotação do dólar não constituem ação deliberada contra o país

Por Maílson da Nóbrega 30 out 2021, 16h25

Diante das recentes turbulências do mercado, o presidente Jair Bolsonaro tem acusado o mercado de ficar “nervosinho”. Neste sábado 30, em Roma, ele falou algo mais. “O mercado toda vez que fica nervosinho atrapalha em tudo o Brasil”. Ou seja, adicionou uma teoria conspiratória para explicar os recentes movimentos negativos no mercado de ações e na cotação do dólar.

Em vez de falar essas tolices, o presidente deveria ter consultado o seu ministro da Economia, o “Posto Ipiranga”, para entender as razões dessas turbulências. O ministro Paulo Guedes não precisaria pensar muito. Qualquer principiante nesse campo poderia explicar que as quedas na bolsa de valores e as altas do dólar resultam da percepção de grave elevação de riscos na economia brasileira. Como em qualquer país, os mercados reagem à percepção de piora no ambiente macroeconômico. 

Bolsonaro foge da responsabilidade de seu governo no clima nervoso que tem caracterizado os mercados nos últimos dias. Na verdade, as turbulências foram causadas pela decisão do ministro da Economia, certamente com aprovação prévia do presidente, de pedir uma licença para gastar, rompendo o teto de gastos. Pior, ficou claro que a medida teria natureza eleitoreira, qual seja a de recuperar a popularidade de Bolsonaro e melhorar sua competitividade nas eleições presidenciais de 2022.

O teto de gastos, aprovado em 2016, foi uma medida heroica para deter o crescimento ininterrupto que se observava nas despesas federais, o que poderia levar à insustentabilidade da dívida pública e, assim, à incapacidade do Tesouro de honrar a dívida pública. Bem recebida à época pelos mercados, por seu caráter responsável, o teto contribuiu para recuperar a confiança na economia e para permitir ao Banco Central reduzir a taxa básica de juros, a Selic, para seu menor nível histórico de 2% em 2020. 

O ministro da Economia costumava repetir que o teto era inegociável e acusou o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, de “fura-teto” quando este teria defendido que os investimentos públicos ficassem isentos do teto. Não poderia ter sido outra a reação dos mercados ao ver que o próprio comandante da área econômica defendia uma medida que contrariava sua promessa de defesa intransigente do teto.

A reação dos mercados, longe de ser uma trama contra o Brasil, mostra que sinais vitais da economia continuam funcionando. O seu papel, em momentos como o atual, é emitir mensagens que, se captadas devidamente pelo governo, poderiam ditar uma revisão da ideia de romper o teto. O governo buscaria, como é possível, compensar a duplicação do valor do novo Bolsa Família com corte de despesas menos prioritárias, incluindo uma negociação com o Congresso para cancelar as emendas do relator ao Orçamento. Elas financiarão gastos dispensáveis, sem transparência e com elevado potencial de corrupção. 

Em resumo, há motivos para a reação dos mercados e elas decorrem de erros do governo. Ao contrário do que pensa Bolsonaro, ela é um alerta que deveria ser levado em conta.

Continua após a publicidade

Publicidade