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Maílson da Nóbrega Por Coluna Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história

Ignorância de Bolsonaro prejudica o Banco do Brasil

A eventual demissão do presidente do BB, há apenas quatro meses no cargo, mostra o completo alheamento do presidente sobre a realidade que cerca o banco

Por Maílson da Nóbrega Atualizado em 24 fev 2021, 11h02 - Publicado em 14 jan 2021, 11h26

Será grave, se confirmada, a demissão do presidente do Banco do Brasil (BB), André Brandão, no cargo há apenas quatro meses. Jair Bolsonaro teria tomado a decisão insatisfeito com o anúncio do programa de demissão voluntária – que espera cinco mil adesões – e do fechamento de 112 agências deficitárias. O presidente teria optado pela intervenção política no banco depois de queixas de parlamentares que apoiam o governo.

Esse é mais um ato de Bolsonaro contra o BB. O primeiro foi a ordem para suspender um comercial que buscava conquistar grupos mais jovens, inclusive com apelos a questões de raça e gênero. A peça publicitária recebeu elogios de especialistas, mas irritou um presidente sensível a pautas de costumes e alheio dos desafios do banco.

Bolsonaro demonstra, mais uma vez, seu desconhecimento da realidade. Por décadas, o banco gozou do acesso ilimitado a recursos do Banco Central (BC), sem qualquer custo, via uma “conta de movimento”. O BB não precisava esforçar-se na captação de recursos nem recorrer ao redesconto para atender suas necessidades de liquidez.

  • Essa foi a era de ouro do BB, que permitiu espetacular expansão e lhe conferiu a posição de oitavo maior banco do mundo, o que não guardava lógica com sua inserção em um país em desenvolvimento nem com a dimensão do sistema financeiro brasileiro. Nesse período, o BB podia expandir sua rede e ampliar seu quadro de pessoal sem maiores preocupações com custos e com fontes de financiamento para viabilizar tais ações.

    O fim da “conta de movimento” (1986) criou enorme desafio para o BB, o de sobreviver sem o acesso fácil a recursos do BC. Houve risco de falência, evitado mediante forte injeção de capital da União em mais de uma oportunidade, nos anos 1990. De lá para cá, o banco modernizou-se, adotou novas práticas gerenciais e ajustou sua estrutura à nova realidade, no que foi bem-sucedido.

    Hoje, o desafio é adaptar-se ao novo ambiente do sistema financeiro, que implica a crescente digitalização da gestão e das atividades de crédito e prestação de serviços. O BB tem que concorrer com seus pares no setor privado, mostrando eficiência em ambiente de intensa competição. Seus concorrentes têm adotado medidas para reduzir quadros de pessoal e fechar agências. As medidas anunciadas pelo BB são coerentes com essa realidade e, por isso, teriam merecido o apoio do Ministério da Economia.

    Bolsonaro enxerga o BB pelas lentes dos anos 1980, evidenciando uma incrível incapacidade de absorver e entender novas realidades. Se confirmada a demissão do presidente do BB, terá sido mais uma atitude incompatível com promessas de não interferir na gestão das empresas estatais. Por essas e outras, sua rentabilidade é inferior à dos concorrentes. A medida assustaria investidores estrangeiros que aplicam em ações do BB. Seria mais um prego no caixão da suposta adesão do governo ao credo liberal.

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