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O significado da libido em tempos de Covid-19

A resposta a este desafio precisa ser rápida e vigorosa, mobilizando toda nossa vontade de viver e a capacidade de nos superarmos

Por Carmita Abdo - Atualizado em 23 mar 2020, 17h36 - Publicado em 23 mar 2020, 14h34

Quarentena significa separação e restrição de mobilidade de pessoas, potencialmente expostas a um agente contagioso. Tem o objetivo de verificar se elas adoecerão, reduzindo assim o risco de infectarem outras pessoas. Essa providência difere do isolamento, que é a separação das pessoas – já diagnosticadas com uma doença contagiosa – de outras que não estão doentes. Os dois termos são frequentemente utilizados como sinônimos, em especial nas comunicações para a população geral.

A palavra quarentena foi usada pela primeira vez em Veneza, Itália, em 1127, referindo-se ao confinamento de pessoas expostas à hanseníase. Mais recentemente, esse procedimento – várias vezes adotado, ao longo da história recente da humanidade – voltou à cena, em função do coronavírus 2019 (COVID-19). Na sequência, o isolamento se impôs, como tentativa de prevenção ao caos. Nesse sentido, conforme amplamente divulgado, no Brasil os ministros da Justiça e da Saúde editaram, em meados de março, portaria para combater a pandemia, autorizando profissionais de saúde a “solicitar o auxílio de força policial nos casos de recusa ou desobediência” por parte das pessoas que precisam ficar em isolamento ou quarentena.

Abro aqui um parênteses para alertar sobre aspectos de outra ordem. Para além das consequências sanitárias, se o confinamento é imprescindível como forma de controlar o vírus, também pode ter repercussão social e psíquica negativa, levando à depressão e ao aumento da violência doméstica e conjugal, bem como ao crescimento do número de divórcios. A China viveu e ainda vive essa situação.

O isolamento compulsório (apesar de inquestionável em determinados casos) pode fazer com que as pessoas desenvolvam sentimentos de tédio e/ou medo, cujas repercussões sobre a saúde mental serão tanto mais danosas quanto mais longo for esse período e maiores as perdas que ocasionar. Isto porque – quando confinados – interrompemos nosso trabalho, alteramos nossa rotina e nossa atividade física, o que gera insegurança, irritabilidade e insônia. A solidão, decorrente de privação de vida social sem estimativa de retorno, eleva a concentração sanguínea de cortisol (o hormônio do stress), o que aumenta o risco para doenças cardiovasculares, depressão e stress pós-traumático.

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Conectar-se às redes sociais o tempo todo (o que a Organização Mundial de Saúde denominou infodemia) não diminui necessariamente a sensação de solidão, porque nos expõe a uma infinidade de notícias, nem sempre verídicas, confundindo-nos e nos fragilizando.

Fecho aqui o parênteses dos  incômodos aspectos para abrir espaço ás boas falas.

Você sabe o que significa a palavra LIBIDO? Seria sexo, desejo, luxúria…? Libido é isso, porém muito mais.

Recorri ao velho dicionário do Aurélio (primeira edição), para buscar o melhor significado. Esta foi a fonte escolhida, numa intencional homenagem aos “ idosos”, co-protagonistas da impactante realidade que estamos atravessando.

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Para Freud, segundo Aurélio, libido é energia motriz dos instintos de vida, i.e., de toda a conduta ativa e criadora do homem.

Pois bem, nessa difícil hora, inédita para a maioria de nós , que nunca enfrentamos uma provação de tamanha magnitude (não atravessamos antes nada comparável a uma guerra de caráter mundial), coronavírus desafia a nossa libido.

A resposta a este desafio precisa ser rápida e vigorosa, mobilizando toda nossa vontade de viver e a capacidade de nos superarmos. Apesar de estarmos todos no mesmo barco, mais cedo ou mais tarde cada um apresentará suas próprias competências e suas limitações. Mas todos mobilizaremos algum grau de libido, essa força motriz que nos garantiu viver até agora e que, unida a de bilhões de outras pessoas, nos fará descobrir juntos uma saída e sobreviver à monstruosa onda viral.

E quando essa enorme e aterrorizante onda quebrar na praia da nossa solidariedade, a maioria de nós estará por lá, tendo cumprido mais uma trajetória de sucesso, que é o destino universal daqueles que conservam o instinto de vida! Que você esteja entre os sobreviventes, juntamente com todos os que você ama!

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Entretanto, se lendo o título desta coluna, você esperava que eu orientasse como manter a vontade de fazer sexo, como conseguir obter ereção em tempos de coronavírus, como fazer sexo sem se contaminar… Se isto está preocupando você, mesmo nestes dias… parabéns pela sua imbatível libido! Voltaremos a conversar oportunamente.

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