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O impacto da pandemia nos hábitos de vida

Talvez esse momento seja oportuno para rever o estilo de vida, reorganizar a alimentação e por em prática a antiga meta de uma vida mais saudável

Por Claudia Cozer Kalil - Atualizado em 26 Maio 2020, 13h16 - Publicado em 26 Maio 2020, 12h43

A preocupação com o peso e doenças como diabetes, hipertensão e dislipidemia sempre foi um tema “chato” para os pacientes durante as consultas com o endocrinologista. O enfoque ou é muito voltado para a parte estética ou muito às solicitações do profissional de saúde por uma qualidade de vida melhor. Insistir em um controle de peso, alimentação saudável e exercícios físicos parece um discurso repetitivo dos médicos, mas que obviamente está embasado em dados de morbidade e mortalidade que essas patologias causam. Doença cardiovascular (infarto e acidente vascular cerebral), câncer, doenças respiratórias são as doenças que mais matam no mundo (mais que o Covid-19) e têm relação com o estado metabólico do indivíduo (peso, níveis glicose e colesterol, pressão arterial).

A pandemia de coronavírus tornou esse tema ainda mais real à medida que os estudos observacionais identificaram um risco maior de mau prognóstico e mortalidade nos indivíduos obesos, diabéticos, hipertensos e com síndrome metabólica. Em algumas regiões, 20-50% dos pacientes com Covid-19 têm diabetes mellitus tipo 2 e 89.3% têm uma ou mais das seguintes condições: hipertensão arterial (49.7%), obesidade (48.3%), doença pulmonar (34.6%), diabetes mellitus (28.3%) e doença cardiovascular (27.8%).

Paradoxalmente, nas últimas guerras, as pessoas que mais sobreviveram à fome e escassez foram as com maior reserva energética. Hoje, esse excesso de adiposidade, níveis de glicose e lipídeos elevados são fatores negativos para sobrevida.

Conhecidamente essas doenças têm uma fisiopatologia que leva a uma lesão do endotélio vascular e menor resposta do sistema imune a uma agressão externa, que quando associado a infecção pelo Covid-19 agrava as lesões vasculares em múltiplos órgãos concomitantemente com uma menor resposta imunológica. Em outras palavras, pacientes que já estão com suas patologias causando um processo inflamatório crônico nos tecidos são agravados pela presença do vírus. Subitamente o tema vida saudável passou a ter uma relevância ainda maior na nossa vida.

Justamente num momento em que as pessoas se encontram em isolamento, com limitações de suas atividades físicas, sob intenso estresse psicológico e econômico, deparando com notícias frequentes do número crescente de óbitos, elas também precisam se preocupar com sua saúde física. Talvez esse momento seja oportuno para rever hábitos de vida, reorganizar sua alimentação (dentro das suas condições e preferências), valorizar e iniciar uma atividade física aeróbica, equilibrar o emocional e por em pratica a antiga meta de uma vida mais saudável, entendendo que saúde física e mental nem sempre são sinônimos de corpo esbelto e magro, e vida saudável não significa dietas restritivas ou limitadas.

Voltamos a falar do velho equilíbrio e bom senso. Boa alimentação é mais do que ingerir nutrientes. Envolve como eles são combinados e preparados, o modo de comer e seu conteúdo simbólico, cultural e social. Aprender a gerenciar as escolhas com autonomia e cuidado, cozinhando refeições saborosas e balanceadas, usando todos os grupos de alimentos, criando regularidade e ambientes apropriados, em companhia (quando possível), reservando um momento para que as refeições sejam feitas com atenção. É hora também de treinar habilidades culinárias e trocar experiências.

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Nesse aspecto, pessoalmente acredito que as preocupações e cuidados familiares devem estar mais voltados para nossas crianças e adolescentes. Momento útil para as famílias pensarem nos futuros adultos que precisam ter um sistema imune mais eficaz e mais preparados para envelhecer com mais qualidade de vida. Nossos jovens nunca foram tão sedentários, pobres em qualidade e variedade alimentar, procurando métodos milagrosos e rápidos de perda de peso, associando sempre prazer com excessos (comida ou restrições, álcool, cigarros, drogas). Curiosamente os jovens foram os que mais aderiram ao isolamento social e ao medo de contrair o Covid-19. Por que não aproveitarmos esses momentos para estimular novos hábitos e rotinas?

Claudia Cozer Kalil
Ricardo Matsukawa/VEJA.com
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