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Epigenética: a saúde está em nossas mãos

Muitas pessoas presumem que o destino de nossa saúde é determinado por nossos genes. Na verdade, exatamente o oposto!

Por Marcelo Bendhack 21 Maio 2021, 11h47

Já na Grécia antiga, Aristóteles (384-322 a.C.) tratou em sua famosa obra Περὶ ζῴων γενέσεως (em tradução livre “Sobre a Geração de Animais“) a ideia de como uma forma de vida, uma pessoa totalmente treinada, pode se desenvolver a partir da matéria não formada. Ele desenvolveu o modelo de Epigênese (ἐπιγένησις), segundo o qual a matéria não formada reúne gradualmente todas as estruturas do corpo e o ambiente tem um papel importante, especialmente porque as funções do corpo são intrínsecas e coordenadas com ele.

Séculos mais tarde, o pai da epigenética moderna, Prof. Conrad Hal Waddington (1905-1975), um zoólogo britânico, assumiu a ideia de como é possível que de um único óvulo fertilize todos os outros, numa estimativa de 210 diferentes tipos de células do corpo humano. Todas essas células têm os mesmos genes e, no entanto, estruturam gradualmente todas as partes necessárias de um organismo viável e perfeitamente adaptado às condições externas de vida. Conrad Hal Waddington postulou que deve haver uma conexão entre os genes e as condições ambientais externas que agem sobre eles. Essa conexão é um novo nível de regulação de nossos genes que é mutável, muito adaptável e herdável. Isso é epigenética!

Como funciona a epigenética e o que ela significa para nós é explicado hoje cada vez melhor pelo número crescente de novas descobertas científicas da biologia e da medicina.

Por exemplo, conhecemos os componentes da nossa dieta que são necessários para o correto funcionamento da epigenética. Se estes componentes forem deliberadamente removidos da dieta de certos ratos, eles terão sua prole, seus descendentes modificados. Uma variável possível é que seus descendentes serão obesos e mais propensos a doenças como câncer e diabetes. Este é um bom exemplo de como a mudança de um único fator externo (a comida, no caso), afeta a saúde da prole.

Devido ao conhecimento e inovações apresentadas pela epigenética, a maneira como as pessoas se veem será revista gradualmente, e a percepção quanto a sua suscetibilidade física irá modificar também padrões e conceitos.

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Até agora, tem havido uma visão generalizada de que a saúde humana depende em grande parte de sua composição genética. Se você tiver a sorte de ter herdado “genes bons”, só então haverá boas perspectivas de uma vida longa sem doenças graves. Muitas pessoas presumem que o destino de nossa saúde é determinado por nossos genes. Não é assim! Na verdade, exatamente o oposto!

Ao longo de milhões de anos, nossa evolução nos trouxe até aqui, à nossa existência atual, que é o ápice do nosso desenvolvimento. Estamos equipados com tudo o que é necessário para desfrutar de uma vida longa e saudável. Mesmo que certos fatores externos se tornem muito desfavoráveis por um curto período de tempo, nossa epigenética consegue se adaptar para que possamos superar essa fase sem danos.

Hoje, conhecemos muito bem os fatores que podem ter um efeito duradouro na regulação epigenética de nossos genes. Isso inclui, por exemplo, alimentos, clima, estresse, raios ultravioleta, bactérias, toxinas, vírus, produtos químicos, substâncias artificiais, condições de vida, drogas e medicamentos.

Se conseguirmos gerir todos estes fatores para nós próprios e para os nossos filhos ao longo da vida, mas também adaptados em certa medida ao processo natural de envelhecimento, num equilíbrio constante, sem grandes oscilações, esta será a chave para uma vida longa sem doenças graves. Nossa epigenética seria como um espartilho protetor de ferro em nossos genes para que eles nos protejam ao longo da vida e de forma saudável.

A epigenética é um campo que deve ser ainda muito explorado. É uma chance para determinarmos o destino de nossa saúde, acompanhado de cuidados, bem-estar e qualidade de vida por um longo período. Ou seja, é possível viver mais e, ao mesmo tempo, reduzir os riscos de doenças graves.

Letra de Médico - Marcelo Bendhack
./Divulgação
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