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Coronavírus: o impacto das mudanças sociais nos nossos filhos

Como explicar de forma adequada para ele se nem mesmo todos entendemos exatamente o que se passa?

Por Mauro Fisberg - Atualizado em 30 jul 2020, 19h03 - Publicado em 2 abr 2020, 13h53

Acordar e refugar para sair da cama. Banho, escovar o dente, roupas, café da manhã e escola. Lanches, aulas, almoço, tarefas e lições de casa. Descer e brincar ou atividades institucionais. Lanche da tarde, televisão, computador e outras telas. Jantar, esperar alguém chegar para brincar, rituais de sono. No dia seguinte, tudo de novo. A rotina de nossas crianças.

No entanto, nestes dias as coisas saíram do normal e estamos com o mundo virando em ritmo diferente. Restritos em casa, sem aulas, televisão ligada nos noticiários praticamente 24 horas. Uma sensação de pânico nos adultos, um medo indisfarçável nos mais velhos. E por que não posso descer para brincar no parquinho? Por que não posso sair à rua? Por que não posso visitar meus amigos e meus avós?

Como explicar de forma adequada a nossos filhos se nem mesmo todos entendemos exatamente o que se passa? Como entender algo que não se vê e não se percebe a não ser quando já chegou?

Se alguns ficam felizes por não ter aulas, como entreter uma criança fechada 24 horas por dia. São milhares de perguntas que nem mesmo os especialistas sabem explicar sem milhares de números, estatísticas, mapas interativos, previsões e cálculos. Mostrar fotos e filmes de profissionais com equipamento completo de proteção individual, desinfetando locais públicos. Mas nas ruas não vemos isto… Afinal quase todos teremos sintomas leves ou nada. Mas alguns não terão a mesma sorte.

Não se pode isto, não pode aquilo. NÃO TOQUE. Lave as mãos dos pés a cabeça. Lave com sabonete lugares que nunca foram sequer tocados. Um micróbio, um vírus, uma bactéria, um extraterrestre ou um estranho? Uma gripezinha ou uma doença mortal? Mas os velhos não morrem? Mas os meus velhos nunca morrem por que são meus…

Não podemos ir à praia? Não posso correr pelos morros? Como vamos ficar aqui neste quartinho com 10 pessoas um sobre o outro. Como fazer para que o sinal da internet não caia exatamente quando todos estamos utilizando. Como fazer o streaming não travar. E quantos canais podemos ter ao mesmo tempo? Como limpar se não temos água? Sabonete ou sabão para 10 pessoas 20 vezes ao dia? Como fazemos com o lixo que já não é recolhido? E se chove.

Parece desesperador, mas não é ficção científica. As mudanças chegaram e temos de nos adaptar e temos de ajudar. Não sair é não sair. Temos de trocar as perguntas pelo que é possível. E reivindicar o que não temos.

A primeira coisa que podemos fazer é estabelecer rotinas a todos. Acordar, limpeza, alimentação e tarefas. Ajudar nas coisas de casa, arrumar, estudar, ler. Deixar o noticiário para quando necessário. Comentar o dia e não o que aconteceu no dia. Manter horários e manter sanidade mínima. Não podemos esconder porque não convenceremos, mas não podemos entrar em desespero. A ciência mostra que vamos passar (mesmo que alguns políticos não entendam isto…). Cantar e dançar. Sorrir e contar histórias. Lembrar de tempos diferentes e programar sonhos. E vamos acordar e sair um dia à rua novamente.

Como diz a música de Pablo Milanez de forma adaptada livremente por mim (perdão Pablo): “Pisarei nas ruas novamente de uma cidade que foi modificada, e nas praças liberadas me deterei a chorar pelos ausentes. Eu unido aos que fizeram pouco ou muito, verei retornar os livros, as canções. Renascerá o povo de sua ruína e pagarão os culpados e irresponsáveis. Um menino brincará na rua com seus novos amigos e o canto será o que foi plantado” pelos heróis que lutaram para combater o inimigo. Lembraremos dos médicos, dos enfermeiros, dos policiais, dos jornalistas, dos políticos honestos e práticos e dos que fizeram a nossa vida seguir- entregadores, produtores, distribuidores, plantonistas… E todos que se organizaram para que nossas crianças possam sair à rua novamente e serem velhos que chegarão a uma velhice tranquila e sem sustos.

Heitor Feitosa/VEJA.com
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