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“Computador, computador meu, existe alguém mais belo do que eu?”

Quando a pandemia passar, as ferramentas de videoconferência poderão estimular a busca por procedimentos estéticos nos consultórios médicos

Por Adilson Costa - Atualizado em 21 set 2020, 12h10 - Publicado em 21 set 2020, 11h56

Nunca o indivíduo humano teve a oportunidade de se ver tanto durante o dia como agora. Com a popularização do trabalho remoto, decorrente do distanciamento social gerado pela Covid-19, o uso indiscriminado de ferramentas de videoconferência fez com que as reuniões virtuais se tornassem a praxe. Antes, parecia estarmos presos em um bolha, vendo o mundo externo passar, como se fôssemos meros expectadores. Agora, como em um teletransporte de um pé lá, outro cá, aquela janelinha no canto da tela do computador, por onde vemos a nós mesmos pela óptica do outro, passou a ser nosso alter ego terceirizado; na realidade, quase um “outer ego”.

Na semana passada, falei com uma amiga do Rio de Janeiro. Assim como várias mulheres, ela sofre de uma condição comum, o melasma – tudo bem que, do meu olhar de dermatologista, ele nem é tão intenso assim, mas, para ela, é como se fosse um farol aceso no meio da testa, 24 horas por dia, 7 dias da semana. Ela disse que, após terminar uma videoconferência, um dos convidados mandou uma mensagem para seu celular: -“O seu melasma melhorou, heim?!” Pronto, bastou para que todas as imperfeições, que, até então, estavam aprisionadas naquela janelinha do computador, aflorassem em seu consciente, como se estivessem a vida toda expostas, enfileiradas, em todos os telões luminosos da Times Square, para o mundo inteiro ver. Ela me disse: -“Quando acabar essa pandemia, serei a maior freguesa de procedimentos dermatológicos!”

De fato, vivemos em um mundo no qual os padrões de beleza nos impedem de coexistir em harmonia com a nossa ânsia pelo desleixo, por menor que esse seja. Exageros à parte, de fato, vários trabalhos científicos comprovam que o bem-estar estético eleva a autoestima, torna a pessoa mais feliz e traz melhores condições para promoção social e profissional. De um modo geral, é como se uma boa apresentação de nossa figura exterior ajudasse-nos a nos apresentar de forma graciosa para outrem, tornando-nos “emocionalmente” confortáveis com a ilusão da inexistência de críticas alheias, uma vez que, nós mesmos, não conseguimos nos ver em tempo integral e real, abafando nossa própria censura.

Bom, tirarei por mim. O isolamento social não foi muito camarada comigo: uns quilinhos aqui, uns dias a mais com barba para fazer ali, negligência com a academia, cabelo quase no estilo hipster argentino… No entanto, a vida seguia bem até a primeira videoconferência. Com iluminação péssima, dia nublado e noite maldormida, o resultado da experiência foi como de um exercício custoso de matemática, com o produto inestético digno de uma equação de função exponencial combinada com uma progressão geométrica: exageradíssimo, tendendo ao quadrado do infinito! Nada mais assustador para um dermatologista. Isso bastou para que, a partir de então, aquela folha amarela de post-it ganhasse uma nova e nobre função na sua ignorada existência terrestre: foi colada sobre a câmera do computador, caso eu esquecesse de a desabilitar. Com isso, consegui postergar qualquer intervenção estética em mais alguns meses, até que eu vá visitar a família no Brasil – aliás, cá para nós, quem entende de procedimento estético é médico brasileiro; os bons que eu confio ainda estão todos por lá.

Daquele momento, percebi, da forma mais inquietante possível, que os dias atuais fizeram com que essas ferramentas virtuais de comunicação removessem a proteção natural cômoda do não se conseguir ver. Elas fizeram com que acabasse a isenção com a preocupação do não se enxergar, pelo menos no tocante ao rosto e cabelos. Percebi várias pessoas se queixando da mesma descoberta, como se essas ferramentas nos tornassem vassalos de nossa própria falta de beleza. Daí, vem minha amiga carioca para só reforçar a minha tese.

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Mas algo há de se considerar. Devemos ter cuidado com o exagero dessa autocrítica. Dependendo do ambiente no qual se está, como no meu próprio exemplo citado, a presença de uma iluminação precária, ângulo e altura ruins da câmera, baixa resolução da tela e se nos vemos através de um computador ou do celular, o produto imperfeito nem sempre é fiel à soma dos fatores inestéticos. Podemos ser levados, sim, a erros de interpretação para mais ou para menos, o famoso desvio-padrão que, nesse caso, rege a nossa busca narcisista incessante pelo ser belo. Mas, se o até-então-camarada espelho começar a dar sinais de uma silenciosa indiscrição sobre esse incômodo da imagem que andava calado, ah, talvez, haja coincidências não tão inocentes assim, justificando a procura por uma bem-vinda ajuda profissional especializada.

Porém, deixando de lado o “filosofar” da questão, não temo arriscar o palpite de que haverá uma revoada de pacientes em busca de procedimentos estéticos, estimulados pelo recente “se ver” das videoconferências. É como se a toxina botulínica, peelings, preenchimento à base de ácido hialurônico, luz intensa pulsada, laser fracionado, ultrassom microfocado e substâncias injetáveis formadoras de colágeno, à base de ácido poliláctico e hidroxiapatita de cálcio, entre tantos outros procedimentos médicos, encontraram um aliado inesperado nessa pandemia. O incômodo latente com a própria aparência passou a ser delatado em tempo real, quase como o que acontece com alguns pacientes que, convivendo anos com a catarata, após realizar a cirurgia para a colocação de lentes intraoculares, veem no espelho as marcas do tempo transcorrido, mascaradas pela visão turva dos olhos até então doentes, e buscam por ajuda estética do dermatologista.

Enfim, muita coisa mudou com essa pandemia do Covid-19. Com ela, mudou nosso olhar autocrítico com nosso invólucro corporal. Parafraseando o ditado popular, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”, as plataformas de videoconferência se transformaram no olho artificial e pseudo especializado da nossa rotina de exploração plástica. Será que nos tornamos reis ou escravos de nossa vaidade? Não sei, mas que, ao menos, assim como os ciclopes da Antiga Grécia que, com apenas um olho no meio da esta, eram os ferreiros oficiais de Zeus, conferindo-lhe seus potentes raios e trovões luzentes, os meios de videoconferência começaram a iluminar e colocar na ribalta nossas características pouco estéticas que, talvez, viviam protegidas em nossa escuridão vaidosa.

Agora, cabe minha dúvida: quem será meu amigo dermatologista a me atender na minha próxima viagem para o Brasil?

Adilson Costa
Adilson Costa Ricardo Matsukawa/VEJA.com
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