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Ciência boa é ciência farta: os desafios da democratização do dado técnico

A reflexão é fundamental para se por fim às fake news relacionadas às boas pesquisas, como as vacinas para Covid-19

Por Adilson Costa Atualizado em 18 nov 2020, 13h19 - Publicado em 18 nov 2020, 13h00

Em tempo algum se falou, e duvidou, tanto de ciência como nesse ano de 2020, devido à pandemia de Covid-19. Dados científicos robustos, superficiais ou meras falácias criativas foram colocados em um mesmo balaio. Com uma balança frágil, as pessoas assumiram papel de pseudocientistas e atribuíram um mesmo peso especulativo de veracidade a essas informações, pois, afinal de contas, “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”. Contudo, infelizmente, quem perde com tudo isso somos nós mesmos, pois, no frigir dos ovos, ficamos todos perdidos. Jamais circulou tantos dados científicos esvaziados sobre um mesmo assunto como agora; dados cuja volatilidade de permanência no ar possui prazo de validade que ainda tardam a expirar. Parece que as pessoas estão com falta de tempo e bom-senso, independente da bagagem de conhecimento e grau de instrução, para digerir tudo que lhes é passado, o que faz tais informações reverberarem infinitamente no espaço. Existem coisas que são claramente fantasiosas, mas os leitores creem-nas e repassam-nas sem imaginar que essa corrente da má-informação só conturba ainda mais o cenário de esperança, e crítica, no melhor que a ciência pode nos dar: os fatos.

Aristóteles, filósofo da Antiga Grécia, disse que “o ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Essa frase não poderia ter tamanha pertinência como nos dias atuais. Porém vemos que a população não se dá ao luxo da reflexão calma e eficaz, ou da dúvida intrigante e progressista, por exatamente estar à frente a uma pandemia que, até agora, já matou 1,260 milhão de pessoas em apenas 1 ano. Nesse panorama frenético, infelizmente, sai à frente o ignorante com sua parca e corajosa onisciência. Nenhuma vez, no mundo atual, foi tão fácil acreditar no inacreditável ou experimentar o duvidoso. Seria como o démodé empirismo, no qual toda a ciência advém exclusivamente da experiência e observância práticas, e o xamanismo tribal místico-curativo, ambos refutados pela atual ciência baseada em evidências, tivessem uma legião de adeptos contemporâneos aos seus pés.

Não podemos negar, apesar disso, que estamos diante do produto do próprio progresso da humanidade, haja vista que, há pouco mais de uma década, era inconcebível imaginar que um celular e a conexão à internet trariam informação, de qualquer nível, para a ponta dos dedos das pessoas. Esse acesso universalmente democratizado é um bem que foi arduamente conquistado e que não deve ser preterido. Ninguém mais se imagina em viver a era pré-Revolução Protestante (1517 a 1648) – considerada a mãe da democratização científica por trazer o conhecimento religioso, a grande sapiência daquela época, ao conhecimento do leigo –, para esperar “se”, “como” ou “quando” será nossa vez que acessar a informação que queiramos.

Contudo, nessa acessibilidade irrestrita atual há uma vala de bordas infinitas entre os binômios produção-emissão e recepção-absorção do conteúdo de um assunto. Nem tudo é entendível pela grande massa de ouvintes e/ou leitores, reinando aí a criatividade do elucubrar humano. Assim, cada um dá sua temperada à luz de seu próprio conhecimento, produzindo algo palatável ou não, a depender da qualidade desse repertório. É justamente nesse terreno que mora o perigo da ciência explorada em suas bordas, bem como do palpite como forma de propagação de informações infundadas. Nesse contexto, logo, fica impossível não fazer um paralelo com a reflexão crítica do filósofo alemão Friedrich Nietzsche de que “não existem fatos, apenas interpretações”.

Falando especificamente da Covid-19, por certo, deparamo-nos com um estado caótico que a humanidade achava que já havia superado: a possibilidade da morte pela pandemia de uma gripe. Logicamente, a ausência recente de uma situação de dimensões semelhantes fez com que o conteúdo científico fosse disponibilizado no atacado, pululando informações de toda sorte. De um lado, temos o desdém com a gravidade da doença e promessas milagrosamente douradas de várias medicações; de outro, os estudos com as diversas vacinas que, bem ou mal, ainda estão seguindo os ritos normais de pesquisa clínica, mas são constantemente colocados em xeque. Nessa jogatina entre a esperança fantasiosa e a realidade protocolar, a ciência está em desvantagem. Na prática, ambos os lados precisam ser considerados, com parcimônia, já que a especulação é a ponta do iceberg científico e “a virtude consiste em saber encontrar o meio-termo entre dois extremos”, como disse nosso velho e bom Aristóteles.

De verdade, cá pra nós, seria um nirvana se essas suposições milagrosas se concretizassem, já que esse mundo paralelo da ciência imaginária traz “dados” fáceis, ao alcance de todos e de implementação supostamente imediata. Assim, retornaríamos todos à normalidade que nunca imaginamos que sentiríamos tanta falta. Entretanto, não é assim que a responsabilidade científica funciona. Ciência infundada traz consequências atrozes e depõe contra sua amiga mais leal, a eficácia. A eficácia é o que sustentará o anseio de todos em estar presentes para testemunhar a evolução científica, evitando de nos deixar pelo caminho, exatamente esmagados pelo processo dessa evolução.

Uma boa semana, de dados fidedignos, a todos!

Adilson Costa
Adilson Costa Ricardo Matsukawa/VEJA.com
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