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Onde a fome e o desejo se separam

O emagrecimento sustentado obriga-nos a comprometimentos nutricionais, físicos, psicológicos e médicos, que vão além das dietas mágicas e shakes milagrosos

Por Antonio Carlos do Nascimento - Atualizado em 2 mar 2020, 13h21 - Publicado em 2 mar 2020, 12h50

Temos um sistema cerebral extremamente complexo que gerencia nosso comportamento alimentar para a sustentação estável do peso corporal. Nessa requintada estrutura, o consumo calórico é denominado homeostático. Em outras palavras, ele induz a reposição calórica exata às nossas necessidades, em um jogo que envolve fome e saciedade.

Já escrevi nesse espaço que existem várias substâncias no meio ambiente capazes de desestruturar esse processo, interferindo mais notadamente em nossa interpretação do quanto estamos satisfeitos com aquilo que ingerimos e fazendo com que comamos mais para atingir a satisfação. Embora neste caso o mecanismo esteja danificado e um novo nível de ingesta alimentar nos tenha sido imposto, existe ainda uma regência, muito embora modificada.

Em outro plano, mas em um mesmo cérebro, meios indutores adicionais do consumo de alimentos se sobrepõem ao sistema supracitado e determinam cargas calóricas extras além do modulado diretamente pelos centros de fome e saciedade. Tais mecanismos são então compreendidos como não homeostáticos. O mais importante deles está vinculado ao hedonismo alimentar, ou seja, ingesta alimentar norteada pelo prazer que oferece.

Obviamente o leitor percebe a possibilidade desses sistemas se complementarem, fazendo com que, ao tempo que reponha o necessário, o faça com aquilo que lhe dá prazer. Sim, isto é possível.

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Porém, à medida que somos induzidos a consumos que para gerarem níveis plenos de prazer ultrapassem aqueles essenciais para a manutenção estável do peso haverá afastamento entre o que a fome e desejo nos impõem, com inevitável sobra calórica que será armazenada em forma de gordura. Provavelmente esse hedônico sistema possui autonomia, sendo modulável por novas experiências gustativas, olfativas e visuais, ampliando ainda mais o distanciamento entre a satisfação essencial daquela imposta pelo prazer.

Mas, talvez a principal circunstância que eleve o limiar de contentamento para desejados alimentos seja a relação entre o que envolve o hedonismo alimentar e o setor cerebral da recompensa (centro opioide, dopaminérgico), o qual lhe amplia agudamente o patamar de deleite pleno pelos caminhos descritos a seguir.

Possuímos predileção inata para gordura e açúcar o que nos faz deseja-los mais perante a fome habitual, por outro lado é sabido que um dos sistemas cerebrais moduladores de nosso humor é aquele citado anteriormente como centro da recompensa, o qual codifica resposta afetiva positiva com alimentos de elevada palatabilidade. Então, o desconforto emotivo de incontáveis situações pode ser atenuado com açúcar e gordura, o que faz com que fome e desejo se desconectem mais facilmente.

Em uma simplificação extremada é possível dizer que iniciamos resolvendo a fome com o disponível, logo a solucionamos com o que gostamos, para então nos capacitarmos a comer independentemente dela, seja pelo prazer ou por situações que amplifiquem a necessidade dele.

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Podemos traduzir este cenário fisio(pato)lógico para nosso cotidiano quando o desejo desesperado pelo chocolate, doce, torresmo (falo de mim) e tantos outros itens parecem estar entre a felicidade e a inexistência. A fome nesta situação pode ser o fator desencadeante, mas a plenitude para esse conforto alimentar não estará no fisiológico centro da saciedade, mas sim no supracitado centro da recompensa. Nesse estado de coisas “as contas não fecham”.

A excessiva oferta de alimentos ricos em açúcar e carboidratos, que nos são prazerosos e providenciais em correrias cotidianas, aliada à importante falta das substâncias originadas pelos exercícios, as quais tanto nos confortam o status emotivo, são pilares incontestes para a obesidade mundial.

Contudo, equívoco grave é entregar a boa conduta alimentar e eliminação do sedentarismo como alternativa de perda ponderal, o que faremos é conquistar um forte e imprescindível aliado para não continuar ganhando peso e eventualmente discreta diminuição mantida nos ponteiros da balança.

O emagrecimento sustentado obriga-nos a comprometimentos nutricionais, físicos, psicológicos e médicos, os quais vão além das dietas mágicas e shakes milagrosos, aparelhos revolucionários entregando o exercício sem esforço físico do usuário, infalíveis filosofias ou prescrições de fabulosos micronutrientes que resolvem apenas delírios de quem os prescreve.

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Abordo repetidamente estas ponderações, pois somos bombardeados com inescrupuloso e equivocado conceito social que nos imputa a culpa pelo sobrepeso e obesidade, adicionando ainda (e agora desonestamente) a falta de boa vontade para retorná-lo a níveis saudáveis.

Nós não portamos impenetráveis sistemas na gestão da fome e saciedade fisiológicas. Nossas predileções entregues por nosso código genético são (ainda) incorruptíveis. E a possibilidade da abstração emotiva descartaria um grande percentual de excessos calóricos desobedientes ao eixo fisiológico, mas restaríamos inertes, quase robóticos e não necessariamente magros.
Faremos muito para mudar o quase inevitável mundo obeso se conduzirmos nossas crianças no alinhamento de condutas que mantenha a fome e o desejo nos mesmos pontos de partida e chegada.

Ricardo Matsukawa/VEJA.com
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