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Ainda temos desnutridos?

A fome oculta é uma das formas menos visíveis da má nutrição. Nossos novos desnutridos não têm necessariamente baixo peso, mas uma alimentação inadequada

Por Mauro Fisberg 2 Maio 2017, 15h36

Há poucos anos, o panorama de nutrição da criança brasileira, mostrava que a desnutrição cobrava um preço elevado para o nosso futuro. Taxas comparadas a de países muito menos desenvolvidos assustavam os pediatras e governantes, que entendiam que o baixo peso por falta de alimentos determinaria riscos enormes para o crescimento, desenvolvimento e a defesa contra infecções em nossas crianças.

Consequências da desnutrição

Com a melhoria dos sistemas de saúde, o aumento do saneamento básico e algum avanço no poder econômico, as populações de crianças desnutridas foram diminuindo, e ficaram as consequências. Gerações inteiras de escolares com aprendizado inadequado, poucos recursos para a memória e resolução de problemas. Os que conseguiam escapar da desnutrição tinham pouca estatura.

A baixa estatura nutricional ou o crescimento inadequado por falta de nutrientes chegava a alcançar uma em cada quatro crianças em idade escolar. A diferença de estatura do adolescente brasileiro poderia ser de até 10 centímetros, quando comparada ao colega de países como os Estados Unidos, e até 15 centímetros com os dos países europeus.

Sobrepeso

A desnutrição foi ficando para trás, e já não é mais um grande problema de saúde pública, mas trocamos esta situação pelo aumento do excesso de peso. As taxas de sobrepeso e obesidade não param de crescer, e começam cada vez mais cedo.

Por que estamos falando disto agora? Por que em regiões e países que são nossos vizinhos geográficos ou por afinidade, estamos tendo um novo fluxo de desnutridos. Na Venezuela, na Bolívia, nos países africanos e nos do Oriente Médio, a fome vem grassando por motivos de guerras ou problemas políticos. A falta de alimentos é o aspecto comum.

Fome oculta

Mas, talvez um dos grandes problemas de nosso tempo é que estamos vendo um incremento da chamada Fome Oculta. Ou seja, a carência não tão facilmente vista ou diagnosticada dos micronutrientes – ou as vitaminas e minerais. Assim, cada vez mais, vemos crianças com deficiência de ingestão de ferro, cálcio, vitamina A e D. A falta diária de alimentos ricos nestes elementos tão importantes, como as frutas, verduras e legumes é a principal causa desta doença ou conjunto de doenças.

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O aumento da seletividade ou de grande número de casos de crianças e famílias com restrição de consumo de leites e derivados, carnes e outros alimentos, eleva o risco de apresentarmos falta de alguns dos minerais e vitaminas essenciais ao nosso metabolismo.

Alguns dos aspectos mais comuns destas carências são o cansaço, apatia, dificuldades de apetite, ganho de peso e estatura insuficientes, problemas de pele e menor resistência a infecções. E, novamente, um dos problemas que víamos nos tempos da desnutrição volta à tona. A relação entre a falta de nutrientes e a capacidade cognitiva, ou seja, o que havíamos descrito como memória, inteligência, capacidade escolar e de aprendizado alteradas. A anemia por falta de ferro e a deficiência de zinco, entre outros minerais, podem levar a alterações do apetite e crescimento.

Portanto, a fome oculta é uma das formas menos visíveis da má nutrição. Nossos novos desnutridos não têm necessariamente baixo peso, mas têm em comum a alimentação inadequada. Não mais por falta de comida, mas por não comerem corretamente.

Por este motivo, dizemos que nossos novos desnutridos não necessariamente têm o aspecto de uma criança esquálida, pele e ossos… Podem ser até obesos ou apresentar excesso de peso. Mas, no fundo, as deficiências de ingestão estão presentes e cobram um alto preço.

 

Heitor Feitosa/VEJA.com

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