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A cirurgia bariátrica pode te proteger contra formas graves de Covid-19

O procedimento é a forma de tratamento que produz maior perda de peso que se sustenta a longo prazo, evitando, assim, um grande fator de risco para infecção

Por Ricardo Cohen Atualizado em 7 Maio 2021, 12h57 - Publicado em 7 Maio 2021, 12h42

Já foi exaustivamente publicado em revistas científicas e divulgado pela imprensa. A obesidade é fator de risco para o desenvolvimento de formas graves de Covid-19, que pode exigir internação hospitalar, necessidade de cuidados intensivos e uso de suporte ventilatório. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) relatou que mais de 70% dos adultos americanos têm sobrepeso ou obesidade.

No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2003 e 2019, a proporção de portadores de obesidade na população com 20 anos de idade ou mais do país mais que dobrou, passando de 12,2% para 26,8%. No período, a obesidade feminina passou de 14,5% para 30,2% e se manteve acima da masculina, que subiu de 9,6% para 22,8%. Já a proporção de pessoas com excesso de peso na população com 20 anos ou mais subiu de 43,3% para 61,7% nos mesmos 17 anos.

Entre os homens, foi de 43,3% para 60% e, entre as mulheres, de 43,2% para 63,3%. A obesidade, junto com suas doenças associadas como hipertensão e diabetes, são as causas mais comuns de doenças graves e óbitos causados por diversas doenças infecciosas virais, incluindo o coronavírus.

Qual a razão de tudo isso?

A obesidade é uma doença complexa causada por vários fatores que enfraquecem o sistema imunológico. A obesidade cria um estado inflamatório crônico que causa a produção excessiva de pequenas proteínas envolvidas na resposta imune, chamadas de citocinas. A inflamação da obesidade se associa à da infecção viral, piorando o quadro.

Além disso, a obesidade por si só aumenta o risco de doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, doenças renais e formação de coágulos sanguíneos.

Essas condições podem levar a resultados ruins após uma infecção pelo SARS-CoV-2. A obesidade também pode afetar o sistema respiratório. Muitos pacientes com obesidade têm doenças pulmonares subjacentes, como apneia do sono e síndrome de hipoventilação da obesidade, que podem piorar os resultados da pneumonia por Covid-19.

E como a cirurgia bariátrica pode influenciar os resultados?

Mesmo com o progresso no desenvolvimento de drogas para o tratamento da obesidade, a cirurgia bariátrica ainda é a forma de tratamento que produz maior perda ponderal que se sustenta a longo prazo. Um estudo sueco, publicado recentemente, comprovou que em cerca de 26 anos de acompanhamento, os pacientes ainda mantêm perda de peso significante.

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Já existem alguns estudos que mostram como a cirurgia pode influenciar positivamente os desfechos do Covid-19.

Um estudo europeu publicado na revista Obesity Surgery em janeiro de 2021, analisou 353 pacientes submetidos a cirurgia bariátrica e 169 pacientes com obesidade e candidatos a cirurgia, todos com o diagnóstico de Covid-19. Os pacientes não operados foram internados oito vezes mais e necessitaram suporte ventilatório em 60% das vezes, contra nenhum do grupo cirúrgico.

Outra publicação, também de janeiro deste ano, na revista da Sociedade Americana de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, observou 363 pacientes com teste positivo para SARS-CoV-2.Os pesquisadores identificaram 33 pacientes com história prévia de cirurgia para perda de peso. Os pacientes cirúrgicos foram cuidadosamente pareados com 330 pacientes não cirúrgicos com um índice de massa corpórea de 40 ou acima, no momento do teste de SARS-CoV-2.

Este estudo mostrou que a perda de peso sustentada e a melhora do diabetes e da hipertensão no grupo de cirurgia bariátrica antes de contrair COVID-19 estava associada a uma taxa muito mais baixa de internação hospitalar e na Unidade de Terapia Intensiva(UTI). Cerca 18% dos pacientes operados contra 40% dos pacientes com obesidade e não operados necessitaram de hospitalização.

Além disso, 13% dos pacientes do grupo controle necessitaram de internação na UTI, 7% necessitaram de ventilação mecânica e 2,4% foram a óbito. Nada disso ocorreu com os pacientes submetidos a cirurgia bariátrica.

Os pacientes operados, além do controle do estado inflamatório já nas primeiras semanas de pós-operatório, têm controle de suas doenças associadas como o diabetes e hipertensão. Eles tornam-se significativamente mais saudáveis ​​e podem lutar melhor contra o vírus.

Não existe ainda tratamento eficaz para a Covid-19, mas existem provas cientificas de alto impacto e irrefutáveis para o tratamento da obesidade, pandemia do século. Se confirmado por estudos futuros, isso pode ser adicionado à longa lista de benefícios à saúde da cirurgia bariátrica, como melhora do diabetes, hipertensão, doença hepática gordurosa, apneia do sono e prevenção de ataque cardíaco, derrame, doença renal e morte.

Letra de Médico - Ricardo Cohen
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