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José Vicente Professor, advogado e militante do movimento negro, ele é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, instituição pioneira de ensino no Brasil que ajudou a fundar em 2004.

Yduqs, ação afirmativa antirracista no ensino superior privado

Diversidade gera valor e lucratividade e, principalmente fideliza o cliente, o aluno, além de contribuir para a diminuição das desigualdades raciais

Por José Vicente 16 set 2021, 15h29

No Brasil das contradições, incúrias e incoerências, a educação superior vence de lavada. Nela, os jovens pobres precisam trabalhar e pagar a caríssima educação privada, enquanto, os ricos se dão ao luxo de somente estudar, sem pagar qualquer tostão nas universidades públicas. E, principalmente, sem prestar qualquer tipo de contrapartida a sociedade. Nem mesmo um servicinho comunitário qualquer.

Da escola pública que proibia a matricula de escravos e impedia o acesso dos negros libertos por falta de recursos financeiros, no império, à escola que pregava a educação eugênica na sua própria constituição, em plena república, é que se fez e se mantém as desigualdades, exclusões e a branquitude do sistema de educação em todos os níveis.

Na nossa república do atraso e do casuísmo, 80% dos estudantes – e dos pobres – estão nas universidades privadas e 20% – maioria dos ricos – nas públicas. Com isso, e com os impactos do racismo estrutural na educação como um todo, o ensino superior, além de se traduzir num espaço para pouco no país, tradicionalmente, nunca foi um espaço para negros. As poucas exceções de negros formados num país de maioria negra sempre confirmaram essa regra.

Nos últimos vinte anos, as denúncias e as lutas de grande parte da sociedade e do movimento negro contra esse estado irracional e injusto de coisas, encontrou eco e iniciou seu caminho de mudança com o programa de ação afirmativa de cotas pra negros nas universidades públicas e de bolsas de estudo nas universidades privadas, o conhecido Prouni. Com eles, os negros passaram de 3% a 16% dos quase oito milhões de alunos do sistema; uma verdadeira revolução.

Todavia, a despeito do seu valor de face, nenhuma das politicas tocou no ponto fulcral da questão, a presença dos negros do outro lado do balcão, no corpo docente, entre os pesquisadores e na gestão acadêmica. Com isso, no universo de quase três mil instituições de ensino superior publicas e privadas, contam-se nos dedos das mãos e dos pés, o número de professores, pesquisadores, executivos negros. No Brasil da maioria de negros e da democracia racial é dificílimo, quase impossível encontrar um reitor, dirigente ou executivo negro nesse universo.

O Programa de Trainee para negros, anunciado pelo Grupo Yduqs, um dos grupos gigantes do ensino superior, com quase um milhão de alunos, além de necessário e correto aponta para o despertar do sono dogmático desse ambiente da economia. A diversidade gera valor e lucratividade e, principalmente fideliza o cliente, o aluno. Além, logicamente, de contribuir para a diminuição das desigualdades raciais.

A Yduqs tem espaço para fazer mais. Pode olhar para seu corpo docente, funcionários gerenciais e mesmo seus fornecedores, e encontrar boas oportunidades de avançar, inspirar e provocar a concorrência. Educação e antirracismo é uma boa e consistente estratégia para gerar bons negócios e combater a desigualdades sociais e raciais. De quebra, tem a capacidade de ajudar a consolidar uma agenda ESG Racial Educacional, na veia.

Para ter o novo, tem que construir o novo. E, principalmente, tem que ter discernimento, vontade politica e inteligência estratégica para ler os cenários e entender quando é hora de mudar. A coisa certa na hora certa, apesar da defasagem histórica. Bora transformar.

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