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José Vicente Professor, advogado e militante do movimento negro, ele é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, instituição pioneira de ensino no Brasil que ajudou a fundar em 2004.

Racismo no futebol é luta de todos por um

Não devemos ter ilusão da possibilidade de extermínio do racismo do esporte enquanto não conseguirmos exterminá-lo da alma e do caráter das pessoas

Por José Vicente 11 dez 2020, 21h36

O futebol sempre foi um lugar privilegiado para ver e conhecer o indivíduo na inteireza das suas capacidades, grandezas e fraquezas. Da mesma forma, é a mais tradutiva e objetiva expressão do principio do mérito justo. As regras são iguais e conhecidas antecipadamente, o espaço é delimitado em medidas fixas, a bola é redonda para todos. Sem que o juiz seja parcial e salvante os infortúnios, sempre vencerá o talento, a habilidade, a criatividade; e a melhor competência para transformar tudo isso em gols e vitórias. É ali que se manifesta de forma definitiva a capacidade ilimitada da realização e fracasso coletivo. Quando um erra perde todos, e mesmo quando o talento é individual e decisivo, a vitória é sempre coletiva e compartilhada. O sucesso é sempre de todos e, em regra, sempre vencerá o melhor.

Mas, ambiente do futebol é também o lugar de conhecer o indivíduo livre de suas amarras pessoais e sociais. Na arena que substitui as carruagens, os leões e as armaduras romanas, por uma bola e vinte e dois gladiadores defendendo as cores da bandeira e da camisa do seu clube, o imperador, isto é, o estado, trocado pelo juiz, é o alvo predileto por onde jorra a catarse coletiva de xingamentos, ofensas e agressões. A ele e toda sua prole, com destaque preferencial para a senhora sua mãe. Por isso, os mais velhos e sábios sempre defenderam que juiz não devia ter mãe.

E é ali também que o individuo penetra e alcança seu lado escuro da alma para vituperar individual ou coletivamente juntamente com suas frustrações, intolerâncias e torpeza, o ódio, a aversão, a hostilização e a agressão racial. Seja imitando sons de macacos, seja jogando bananas ou mesmo praticando xingamentos e virulências verbais raciais. Ainda que todos os jogadores tenham rendimentos acima da média dos mortais e mesmo que alguns deles sejam milionários e estrelas midiáticas globais. Ali, a mesma mão que aclama e reverencia o talento negro matador da fome de gols, é a mão que autoriza sua execução racial. E, pior de tudo, às vezes a execução vem do apito, ou seja, do próprio e imparcial juiz.

Mas, se o esporte é coletivo porque que o jogador negro é agredido individualmente? Porque ele sempre sai do campo humilhado, arrasado, e, muitas vezes em prantos, sozinho, enquanto todos seus colegas assistem imobilizados a imolação de um dos seus? Eles apoiam e coadunariam essa agressão? O espirito de corpo é seletivo? A dor do racismo é incompreensível para eles?

Vá saber. Melhor ficar com Shakespeare: há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a vã filosofia – esportiva.

A partida entre o Paris Saint Germain e o Istanbul Basaksehir, da fase de grupos da Champions League – Liga dos Campeões da Europa – realizada no dia 8 de dezembro, no Parque dos Príncipes, em Paris, entrará para a história e devolverá para todos os amantes do futebol o sentido glorioso desse esporte. Informados de que o quarto árbitro, Sebastian Coltescu, praticara um ato de racismo contra o ex-jogador negro camaronês, Pierre Webó, que estava no banco de suplentes como integrante da comissão técnica da equipe turca, todos os jogadores saíram de campo e abandonaram o jogo. Acabou a partida. Saíram contrariados, de cabeça erguida e saíram juntos. Compreenderam definitivamente, que não é possível fazer concessão para o racismo, e que enfrentá-lo e combatê-lo é obrigação e dever de todos.

Não devemos ter ilusão da possibilidade de extermínio do racismo das arenas e dos gramados enquanto não conseguirmos exterminá-lo da alma e do caráter das pessoas. Os amantes do futebol devem sentir-se mais esperançados, encorajados e fortalecidos. Nessa noite de magia, como na fábula dos mosqueteiros, esses corajosos jogadores elevaram a régua da intolerância do racismo no futebol e brindaram todos nós com uma demonstração corajosa e exemplar de que a tarefa de consertar o mundo é coletiva. Será sempre de um por todos, todos por um.

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