Nubank: racismo por displicência | VEJA
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José Vicente Professor, advogado e militante do movimento negro, ele é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, instituição pioneira de ensino no Brasil que ajudou a fundar em 2004.

Nubank: racismo por displicência

Diversidade corporativa em que os negros estejam do lado de fora das empresas é engodo

Por José Vicente Atualizado em 18 nov 2020, 19h46 - Publicado em 26 out 2020, 14h07

O ambiente dos bancos tem um consolidado acúmulo sobre discussões, apropriações e resoluções sobre o tema racismo, preconceito e discriminação racial contra negros no ambiente corporativo. Da mesma forma, familiaridade com amplas e diversificadas medidas e ações afirmativas de inclusão, ampliação e valorização da diversidade racial no ambiente corporativo.

Os maiores deles já foram denunciados à barra dos tribunais por discriminação racial por conta da desigualdade da presença do negro nas suas hostes, pelo Ministério Público Federal do trabalho há mais de dez anos. A Febraban – Federação Brasileira dos Bancos – há mais de dez anos tem realizado intensos debates com o Congresso Nacional e instituições focadas nos negros, bem como, produzido amplas pesquisas e estudos de profundidade sobre a questão em todo o sistema.

  • Por seu interesse nessa questão, a Febraban foi das primeiras signatárias da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, juntamente com os bancos Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil, Banco Votorantim e Citibank. Alí, há mais de cinco anos e na companhia de mais 70 empresas de vários setores, cocriam o mapa da estrada para caminhar nessa difícil, complexa, mas inexorável e latente agenda política e econômica do país. Aliás, nesse exato momento, com a Universidade Zumbi dos Palmares, focado no público negro e Anbima, que regula o mercado financeiro e de capitais , finaliza a formação de 180 jovens negros, em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, para a Certificação CPA 10 da Anbima – passe para acessar o mercado de trabalho bancário.

    Além do que, Bradesco seguido por Itaú e quase uma dezena dos bancos foram pioneiros na estruturação de programas específicos para jovens negros na área de estágios corporativos, desde 2008. O Bradesco, o pioneiro, até hoje, contrata quarenta jovens negros da Universidade Zumbi dos Palmares, semestralmente.

    Como se antevê, nenhum banco poderia dizer eu não sabia, no que diz respeito a atualidade e premência do tema negros no país e no ambiente corporativo. Mesmo os desavisados, se tivessem lido os jornais e visto os noticiários televisivos dos últimos meses, teriam uma dimensão do termômetro, e, ao menos por inteligência, teria mais cuidado em apresentações e posicionamentos dessas questões.
    Mas é verdade também que a intolerância racial é a expressão de uma visão de mundo e de crenças sobre os valores que estruturam o julgamento crítico captável e exteriorizado no ato, no gesto, e com mais intensidade, do discurso verbal. E ganha mais inteligibilidade, principalmente, quando se apresenta solto, sem filtro de maneira fluída e voluntária.

    A manifestação da coproprietária do Nubank Cristina Junqueira, no programa Roda Viva, da TV Cultura, ao afirmar que não encontra, ou não existe negros qualificados para serem contratados, e que fazê-lo seria abaixar a régua, é um clássico por onde flui e sempre fluíram os dogmas do nosso racismo cordial, ou no linguajar do ambiente corporativo: o viés inconsciente.

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    É justamente por sobre esse olhar e sentimento de superioridade racial que os negros foram e continuam sendo medidos, contidos e diminuídos na sua potência, nos seus direitos e na sua humanidade. E é justamente através dessa dissimulação, desse ardil que, como afirmou o ex-governador de São Paulo Claudio Lembo, “os brancos de olhos azuis” procuram manter, defender e combater qualquer tipo de perigo ao seu monopólio de privilégios e apropriação dos benefícios, oportunidades e riquezas sociais.

    Os negros não cabem dentro dessa estética branca do poder porque não fazem parte do padrão de grupo e não cabe dentro espaço de privilégio porque não faz parte da rede que constitui e mantém o próprio grupo: isto é, os brancos. Então, qualquer concessão significará justamente rebaixar a régua, contaminar a pureza daqueles que foram ungidos para serem os superiores e ocupar com exclusividade o lugar de prestigio e de poder designado divinamente. E, mantido com a conveniência e omissão do estado democrático de direito.

    Dessa maneira, a modernidade, o descolamento e a pluralidade e diversidade que o banco digital e tecnológico diz querer representar na operação do negócio, choca-se frontalmente com os valores e as crenças do DNA de alguns de seus fundadores. Senão podem ser definidos como farsa, porque é da justiça conceder uma segunda chance ao réu para sua reabilitação, pode pelo menos ser entendido como uma profunda contradição entre o discurso e a pratica.

    O reconhecimento do erro e pedido de desculpas aos negros e ao público em geral, que esperamos sinceras, e a nota pública do seu presidente afirmando que lhes faltou humildade e falta de disposição de ir além dos chavões da diversidade como valor corporativo, pode ser uma grande oportunidade para que o Nubank comece de novo, e agora fazendo a coisa certa.

    Como martelamos nessa coluna, diversidade corporativa em que os negros estejam do lado de fora das empresas é engodo, e, combate à discriminação racial corporativa é tarefa do presidente. Não pode ser terceirizado para grupos de afinidades dos negros da empresa – quando existem -, e nem se esgotarem nos questionáveis prêmios glamorosos de melhor empresa para se trabalhar.

    O Nubank está com a bola e a oportunidade. Pode, por exemplo, imitar a ousadia das empresas da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, como o Magazine Luiza, a Bayer, a Vivo, a Ambev, o Google, o GPA, a CCP entre outras e dar um salto civilizatório na questão. Pode se reinventar, criar e revolucionar com disposição, vontade e honestidade. Vai se redimir erro e ganhar os aplausos da sociedade.

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