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José Vicente Professor, advogado e militante do movimento negro, ele é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, instituição pioneira de ensino no Brasil que ajudou a fundar em 2004.

Jacarezinho, cuidado com o disco voador

A ação policial, além de acintosa e injustificável, foi totalmente reprovável e criminosa

Por José Vicente 13 Maio 2021, 19h51

Um conhecedor mediano da rotina e do ethos policial, apontará com precisão que a ação esquisita da Polícia Civil carioca, em Jacarezinho, perdeu a mão quando um dos policiais foi alvejado e morto enquanto retirava obstáculos que impediam a passagem do comboio, na entrada da comunidade. A partir daí, a ação policial transformou-se em justiçamento. Em operação de vingança que resultou na execução de 28 pessoas inocentes.

O pretexto de combater e prender traficantes que aliciavam menores para o tráfico confirma e atualiza o modus operandis que historicamente marca a ação transgressora das forças policiais nas comunidades negras e pobres cariocas: havia denúncias de crimes insuportáveis praticados pelos traficantes, eles reagiram à ação policial e foram mortos e feridos em legitima defesa. Tratava-se de bandidos, todos tinham antecedentes policiais.

Por esse e todos os demais motivos, a ação policial, além de acintosa e injustificável, foi totalmente reprovável e criminosa. Portanto, deveria ser objeto de providências e responsabilizações rigorosas por parte das autoridades do governo e do estado. Todavia, na contramão da razão, coerência e responsabilidade, o presidente da República justificou a ação afirmando se tratar tão somente de traficantes; o vice-presidente, mesmo antes de identificar os mortos, afirmou que se tratava de bandidos. O governador destacou que a polícia cumpriu o seu papel, e um dos chefes da polícia esclareceu que a corporação fez o dever de casa, não sem antes anotar que a ordem do STF impedindo ações daquela natureza não podia tolher o trabalho policial, vez que era expressão do ativismo judicial.

Como sabido e conhecido, nos últimos anos, o Rio de Janeiro, o Brasil e o mundo, puderam acompanhar ao vivo e em cores a deposição de um governador por impeachment, a prisão de cinco governadores, um deles condenado a mais de 200 anos de prisão. Viu também a prisão do presidente da Assembleia e cinco deputados estaduais, do presidente e quatro dos sete conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, do Procurador Geral de Justiça e, ultimamente, de quatro desembargadores do Tribunal de Justiça do Trabalho. Todos acusados de envolvimento, participação ou comando de organizações criminosas de corrupção ou subtração do dinheiro público.

Junto com as organizações criminosas corporativas que operaram na Petrobras, e aquelas que movimentam a máfia dos jogos, as milícias e o trafico de drogas e de armas, o crime organizado produziu a implosão e esfacelamento orgânico do estado, da política , das instituições, e sobretudo da sua economia. O resultado final de tanta criminalidade organizada significou a morte e aleijamento de multidões, inclusive dos policiais, mortos ou feridos no fogo amigo ou inimigo dos seus mandatários.

Para os facínoras engravatados do crime organizado do asfalto, a polícia soube utilizar a inteligência, as melhores técnicas e tecnologias, e, sobretudo, soube fazer respeitar os limites da lei. Tudo, sem produzir qualquer dano a sua integridade física e seu patrimônio. Nenhuma gota de sangue derramado, e até hoje, ninguém publicamente escrachado como bandido. Em Jacarezinho, no intenso tiroteio de policiais e o crime organizado do tráfico, tombou um de um lado e 28 “suspeitos com antecedentes criminais”.

A sabedoria dos versos milimétricos de Jorge Ben Jor, ainda em 2009, já advertia a todos e, principalmente, os moradores e menores da Comunidade do Jacarezinho, de que, menos que os traficantes, todos deveriam ficar atentos, desconfiados e preocupados com um estado que tem lado, e nunca chega. Quando ele chegar, não tenham dúvidas, será para destruir e matar. Jacarezinho, cuidado com o disco voador.

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