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José Vicente Professor, advogado e militante do movimento negro, ele é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, instituição pioneira de ensino no Brasil que ajudou a fundar em 2004.

Assaí, racismo empresarial cruel e desumano

Cena dantesca convoca todos os cidadãos a se levantarem para cobrar a responsabilização em mais um caso de racismo no ambiente de consumo

Por José Vicente 10 ago 2021, 09h55

De novo, e dessa vez no estabelecimento Atacadista Assaí, na cidade de Limeira/SP, uma cena dantesca convoca todos os cidadãos a se levantarem para cobrar de forma imperativa o cumprimento da lei, a responsabilização e a punição vigorosa e exemplar de todos os responsáveis por mais um caso de racismo contra negros no ambiente de consumo.

O cidadão negro Luiz Carlos da Silva, 56 anos de idade, quando conferia preços nas estantes do interior do estabelecimento, foi falsamente acusado pelos seguranças de estar praticando furtos e, de maneira vil, foi obrigado a se despir, e, em peças intimas, permanecer exposto sob o olhar de pilhéria e zombaria, piedade e compaixão de funcionários e clientes do estabelecimento. Nem suas lágrimas de pai e avô, nem suas súplicas clamando a Deus foram suficientes para fazer cessar tamanha selvageria.

Uma agressão brutal, cruel, que sem quaisquer escrúpulos de racionalidade, expôs à vergonha de ter seu corpo seminu violentado e atravessado por olhares de dúvida e cochichos incriminadores pelos presentes por uma falta que não cometeu, por um crime que não praticou no interior do estabelecimento onde é cliente. Uma agressão inominável e covarde que transgrediu todos os preceitos de civilidade, de decência, de respeito e consideração pelo ser humano.

É inaceitável numa república de direitos que um cidadão possa ser subjugado, agredido, humilhado e desonrado dessa maneira vil pelo seu pertencimento étnico ou pela cor da sua pele. Não há que se falar em liberdade quando o direito de ir, vir e permanecer são parciais e seletivos e dependem da concessão de terceiros; não há que se propugnar por igualdade quando um cidadão pode ser distinguido pela sua aparência e, em razão, dela ser destituídos dos seus direitos de cidadania. Quando um cidadão pode ser agredido, vilipendiado, humilhado e desonrado no espaço público de consumo.

Se supermercados são espaços neutros e democráticos de consumo, e jamais promovem tratamento dessa natureza contra clientes brancos, por que a estética negra deve obrigatoriamente ser alvo de suspeição? Por que o olhar deve ser programado para persegui-los. Por que seu o gesto e movimento deve incomoda, desestabilizar criar dúvida? Por que a dúvida retira sua condição humana e autoriza e estimula sua coisificação, sua profanação, sua violentação? Por que ele não pode ser um cliente bem-vindo? Por que não deve e não pode inapelavelmente ser tratado como um cidadão?

Para todas essas perguntas todos nós sabemos as respostas. Precisamos agora ter a coragem e a grandeza comunitária de fazer a mudança, de fazer transformação. Não há que se falar de atividade empresarial lícita, ética, honesta, neutra e promotora dos interesses sociais e individuais relevantes da sociedade quando no seu interior viceja as mais graves violações de direitos e as mais terríveis agressões contra a honra e dignidade de indivíduos determinados por sua cor e sua raça. Principalmente, quando para cometê-las, nela se juntam funcionários, supervisores, gerentes gestores e dirigentes, que, por omissão ou cumplicidade, unem-se em esforços para despir os negros de suas garantias constitucionais e promover uma acusação, um sentenciamento e uma aplicação privada de pena pública cruel e degradante.

Na luta antirracista que deve unir todos os brasileiros, empresas criminosas ou que compactuam com os crimes praticados pelos seus funcionários ou por terceirizados e que não tem interesse pelo aprimoramento e mudanças precisam ser vigorosamente punidas na forma da lei e condenadas a reparar os danos morais individuais e coletivos de acordo com o dano objetivo, mas, sobretudo, de acordo com sua capacidade de pagamento. Precisam ser punidas de forma draconiana para retornarem a se manter nos trilhos da civilidade.

E a sociedade que pretenda de fato dar um salto civilizatório precisa se levantar e, definitivamente, fazer suas escolhas: espaços de consumo que matam e vilipendiam os cidadãos negros não devem merecer nossa decisão de compra, acesso a recursos públicos coletivos e muito menos investimentos da nossa poupança pública e privada.

Empresas de consumo que matam, violam e achincalham a honra e dignidade humana dos cidadãos negros não devem merecer nossa licença social, não podem e não devem continuar a existir.

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