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José Casado Por José Casado Informação e análise

O inferno da inflação argentina faz ‘Bolsocaro’ parecer suave

Para os argentinos, os preços subiram 53% nos 12 meses encerrados em setembro. Para os brasileiros, a inflação avançou 10,3% nesse período

Por José Casado Atualizado em 15 out 2021, 02h22 - Publicado em 15 out 2021, 08h30

Governos existem não para tornar a vida na Terra um paraíso, mas para evitar que ela se torne um completo inferno, achava o filósofo russo Nikolai Berdyaev.

Sobrevivente das guerras mundiais no século passado, ele morreu na Paris de 1948. Não teve tempo de assistir à sucessão de fracassos políticos que ajudaram a moldar a imagem da América do Sul como o lugar mais quente do inferno.

Desde ontem, por exemplo, a Argentina debate um novo ciclo de hiperinflação. Virou tema de botequim com a decisão do governo Alberto Fernández de congelar preços de 1.245 produtos pelas próximas dez semanas. Além dos itens básicos de alimentação, higiene e limpeza, a lista oficial inclui cerveja, uísque, champanhe e até cremes antirrugas.

Congelamento de preços costuma ser percebido como um atestado público do fracasso dos governos em evitar que a vida da maioria dos governados seja infernizada no acelerado empobrecimento pela inflação, alta e constante.

Para os argentinos, os preços subiram 53% nos 12 meses encerrados em setembro. Para os brasileiros, a inflação avançou 10,3% nesse período. É excessivo, mas a comparação faz o inferno do ‘Bolsocaro’ parecer suave, quase paradisíaco.

Congelar preços é “solução” fácil para governos que perderam a bússola do interesse público. Se resolvesse, realmente, as ditaduras, assim como alguns governos civis na virada do milênio, teriam sobrevivido na Argentina e no Brasil.

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No final dos anos 80 do século passado, os argentinos conviviam com uma inflação média de 257% ao ano e os brasileiros com 166%. A perda da noção de preços desestabiliza a vida em sociedade e, ensina a História, derruba governos.

Exatos 100 anos atrás a Argentina era um dos países mais ricos do mundo, com renda média por habitante equivalente à da Alemanha e da França. O declínio se reflete no centenário processo inflacionário, seguidos calotes na dívida estatal e na expulsão do país do sistema de crédito internacional.

Como no Brasil, o drama econômico atravessa gerações. A situação já era ruim quando o peronista Alberto Fernández chegou ao poder, no final de 2019.

Piorou no ano passado. Gráficas argentinas passaram a imprimir dinheiro de domingo a segunda-feira, 24 horas por dia. Como não conseguiam atender à demanda, o governo precisou alugar maquinário extra no Brasil.

Inflação sem controle já levou a Argentina a ter cinco presidentes no espaço de uma semana, na virada do milênio. Com o congelamento de preços, o governo Fernández imagina garantir um mínimo de estabilidade política para atravessar as eleições legislativas de novembro.

O problema é como sair do inferno direto para o paraíso. Na ironia de um empresário ao jornal La Nación,  o governo novamente tenta resgatar os argentinos do inferno à base de pancadas. Pelos antecedentes históricos,  não há o menor risco de dar certo.

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