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José Casado Por José Casado Informação e análise

Lula provoca a esquerda a pensar: “O que nós deixamos de fazer?”

Ainda relutante sobre a candidatura presidencial pelo PT, ele propõe uma análise das razões do retorno da direita ao poder: "Deve ter sido erro nosso"

Por José Casado Atualizado em 21 nov 2021, 04h25 - Publicado em 21 nov 2021, 08h00

“O que nós [da esquerda] deixamos de fazer?”, provocou Lula, ontem, num evento em Madri. Falava para uma plateia do Partido Podemos, fenômeno da política espanhola — tem somente seis anos de existência e é dono de 5 das 54 cadeiras no Parlamento Europeu.

“Tem uma luta pra esquerda fazer” — continuou — “e a direita surgiu pra desafiar a gente outra vez. Nós temos que ver o discurso deles, analisar. Por que essa gente voltou a convencer uma parcela da sociedade? Por que essa gente deu uma eleição ao [Donald] Trump e não ao [Partido] Democrata que tinha um símbolo de uma mulher [Hillary Clinton] concorrendo à presidência?”

Fez uma pausa, como se estivesse refletindo, enquanto andava pelo palco. “Qual foi a mentira que eles contaram? Qual foi a mentira que fez surgir aqui o Fox [canal de televisão conservador, que replica em espanhol a programação da Fox americana], mais à direita do que a direita? Qual é o problema que faz a França, sabe, ter dois candidatos de extrema direita? Não é mais a [Marine] Le Pen que é mais a extrema direita, tem alguém mais à direita do que ela.”

Abriu os braços e prosseguiu, enfático: “Como é que pode ter surgido Bolsonaro no Brasil? Ô gente, vocês que não são brasileiros… O Bolsonaro era deputado há 28 anos! Não tinha um brasileiro que levasse ele a sério. Você não conhece um discurso dele, não conhece um projeto dele, e de repente esse cara vira presidente da República? Com base em que mentira? Nós temos que analisar isso. E não deve ter sido só erro deles [os eleitores], deve ter sido erro nosso [da esquerda]. O que é que nós deixamos de fazer?”

Para Lula, é preciso pensar nessas questões, “para que a gente comece a ter certeza de que vale a pena a gente lutar, porque a única luta que a gente perde é aquela que a gente não tem coragem de fazer. E aí, juventude, pelo amor de Deus, uma das coisas que está fazendo a extrema direita crescer é a negação da política. A quem interessa a negação da política? Interessa pra eles.”

Evoca seus 76 anos de idade para nova provocação à maioria jovem do auditório: “Vocês que são espanhóis, brasileiros, portugueses, quando vocês acharem que um político que está governando não vale nada, que um deputado não vale nada, que um prefeito não vale nada, que o governador não vale nada, quando vocês tiverem certeza de tudo isso, pelo amor de Deus, ainda assim não desistam da política, porque o político perfeito que você sonham tá dentro de vocês. Entrem na política, mudem a história do país, mudem a história da política. Não desistam!”

Lula está na pista — “é isso que me faz voltar, é o desafio que tenho”—, porém reluta assumir a quinta candidatura presidencial em três décadas pelo Partido dos Trabalhadores. Não esconde a vontade de “querer ser candidato a presidente outra vez”. Mas prefere esperar o verão passar, “vou decidir entre fevereiro ou março”. Motivo: “Tem muita conversa pra fazer ainda”.

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