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José Casado Por José Casado Informação e análise

Bolsonaro presidente derrete o candidato Bolsonaro

Com dificuldades para falar, Bolsonaro falou até em impedir eleições em 2022. Acabou a semana isolado e derretendo a própria candidatura

Por José Casado Atualizado em 10 jul 2021, 04h49 - Publicado em 10 jul 2021, 09h00

Há uma semana Jair Bolsonaro está com dificuldades para falar. Soluça, engasga.

Na manhã de ontem, mal conversou com seguidores na portaria do Palácio da Alvorada: “Estou há sete dias soluçando” — justificou-se — “tenho dois discursos hoje e um amanhã. Estou poupando aqui falar”.

À tarde, se apresentou visivelmente abatido num evento na Universidade de Caxias do Sul (RS). Soluçante, demonstrou dificuldade para completar frases, como “quanto às pressões que eu enfrento, fiquem tranquilos, meu couro é grosso.”

Horas depois, foi jantar com empresários na cidade vizinha de Bento Gonçalves. Entrou no restaurante, ficou minutos, sentiu-se mal e foi retirado pelos seguranças para atendimento médico no Hotel de Trânsito do 6º Batalhão de Comunicações.

Paradoxalmente, foi a semana em que Bolsonaro mais falou — contra o Congresso, o Supremo, a Justiça Eleitoral, etc. Entre soluços e engasgos, inflou uma crise cujo único resultado foi ampliar o seu isolamento político.

Há 30 meses, governa focado na reeleição. Nesta semana voltou a dizer que poderia conturbá-las, sugerindo até impedi-las. Não disse como, nem lhe perguntaram, provavelmente porque nem queriam ouvir. Mas foi o suficiente para unir quase todos contra ele, nos partidos, no Congresso, no Supremo e na Justiça Eleitoral.

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Por óbvio, a hipótese de abstrair o voto não existe no jogo democrático. Ao acenar com essa cartada, Bolsonaro semeou desconfiança entre aqueles que ainda o sustentam no governo.

Não ter eleição significa fechar o Congresso, destruir partidos e liquidar carreiras construídas sem necessidade do bolsonarismo.

Agrupados no Centrão, os aliados de Bolsonaro têm um histórico de fidelidade na dificuldade. No limite, comparecem ao velório, ajudam a carregar o caixão, até choram à beira da cova, mas enterram o governo e seguem vivos. Não fazem pactos de suicídio político.

No retrato das pesquisas dos últimos seis meses, retocado nas sondagens divulgadas nesta semana, Bolsonaro-presidente está derretendo o Bolsonaro-candidato. E esse processo tem tudo para continuar.

Para aliados, é melhor mantê-lo até encontrar alternativa a Lula e ao PT, com prévia definição das fatias do próximo orçamento, que é vital à eleição de 2022.

Para os demais, representa o adversário quase perfeito: isolado, exaurido na voz e na capacidade de ação, sob múltiplas investigações e, como atestou o Datafolha, reconhecido por metade do eleitorado como principal responsável pela catástrofe pandêmica, com mais de 530 mil mortes até à noite de ontem.

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