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José Casado Por José Casado Informação e análise

Bolsonaro, Guedes e Lira precisam mostrar o plano de venda da Petrobras

Não conhece o projeto de privatização da companhia, negociada em bolsas. Mas o controlador, o governo, acha que ela "vai valer zero daqui a 30 anos"

Por José Casado Atualizado em 26 out 2021, 04h58 - Publicado em 26 out 2021, 08h00

Goste-se ou não do trabalho do ministro da Economia, é preciso admitir: Paulo Guedes é coerente. Há 32 anos ele defende um tratamento de choque com a venda de todas as empresas públicas federais, entre elas a Petrobras.

Em 1989, apresentou sua tese da privatização total. Na época, justificou, era para “zerar” a dívida pública federal (interna). Registrou a proposta no programa do candidato do Partido Liberal, Guilherme Afif, na primeira eleição presidencial depois da ditadura. Afif terminou o primeiro turno em sexto lugar. Fernando Collor venceu Lula na segunda rodada.

Guedes decidiu vaguear com a ideia nessa etapa da corrida presidencial de 2022. Obteve o aval de Jair Bolsonaro e a adesão de Arthur Lira, presidente da Câmara.

Por enquanto, parecem salvas de campanha, baseadas em supostos estudos governamentais sobre uma permissão legislativa para venda dos papéis da Petrobras controlados pelo Estado brasileiro. Estima-se que representem 38% do total de ações ordinárias, com direito a voto, ficando a União com algum poder de veto (ação do tipo “golden share”), como já aconteceu nos casos da Embraer e da Vale. O modelo aparentemente em discussão dentro do governo espelharia o adotado recentemente para a Eletrobras, criticado pelo excesso privilégios concedidos a alguns segmentos privados, como os grupos empreiteiros de infraestrutura de gasodutos.

Guedes evangeliza, Bolsonaro aceita mas hesita e Lira diz que topa, evitando detalhes. Ontem o ministro voltou à ofensiva, com uma dose de ironia: “Se estamos com crise hídrica e tivemos escândalo de corrupção… São 30 a 40 anos de monopólio no setor elétrico e no setor de petróleo. E, se daqui a 10 ou 20 anos, o mundo inteiro migra para hidrogênio e energia nuclear, abandonando o combustível fóssil? A Petrobras vai valer zero daqui a 30 anos. E deixamos o petróleo lá embaixo [do mar] com uma placa de monopólio estatal em cima.”

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Bolsonaro vê dificuldades em vender a Petrobras. “Não é colocar na prateleira e quem dá mais leva embora”, disse ontem a uma rádio do Mato Grosso do Sul.

Não há certeza no governo, onde ninguém sabe e ninguém viu estudo específico sobre a liquidação das estatais, muito menos da Petrobras.

Como a empresa é sociedade mista, com ações em várias bolsas de valores, a diretoria se lembrou de perguntar ao acionista controlador — o Estado brasileiro — se realmente tem ou não um plano, um estudo ou mesmo a intenção de vender suas ações. Seria um “fato relevante” que afetaria interesses dos sócios privados, com consequências importantes no mercado acionário, dentro e fora do país.

O governo terá de responder objetivamente. Em qualquer hipótese, abriu-se uma chance para processos sobre potenciais efeitos de uma decisão, incerta e nada transparente, do controlador de uma companhia aberta.

Com agravante: esse privilegiado acionista, o governo, mostra pouco apreço pelo ativo que detém. A empresa, acha, é um ativo em derretimento — “vai valer zero daqui a 30 anos”, prevê o ministro da Economia.

Seja plano ou mero debate, a Petrobras entra na margem de risco: pode virar um estranho caso de privatização com prévia destruição de valor, por iniciativa do acionista controlador.

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