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José Casado Por José Casado Informação e análise

Bolsonaro e governadores planejam bombar o consumo nas eleições

Pobreza, inflação e insatisfação crescentes estimulam Bolsonaro e governadores a iniciativas para estimular pobres e a classe média na temporada eleitoral

Por José Casado Atualizado em 7 jul 2021, 15h34 - Publicado em 7 jul 2021, 09h00

Está lenta a recuperação econômica nas famílias de renda mais baixa, cujos adultos compõem cerca de 80% da massa de eleitores.

A pandemia continua a ter forte impacto no nível de ocupação e de renda. Aumentou a proporção de famílias sem nenhum rendimento do trabalho, informa o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, vinculado ao Ministério da Economia, com base em dados coletados pelo IBGE.

No primeiro trimestre do ano passado, eram 25% os domicílios sem nenhuma renda do trabalho. Em março deste ano, já eram 29,3%.

“Essa diferença”, comentou Sandro Carvalho, pesquisador do Ipea, “reforça a avaliação de que está sendo lenta a recuperação do nível de ocupação entre as famílias de renda mais baixa a patamares anteriores à pandemia”.

O empobrecimento tem sido amplo, com queda generalizada dos rendimentos domiciliares pobres e migração mais intensa de famílias, cuja renda somada variava até R$ 2,4 mil mensais no ano passado, para faixas inferiores de rendimentos.

Além disso, está acelerado e persistente o avanço da inflação nos bolsos dos pobres — isto é, oito de cada dez eleitores. A alta de preços corrói a renda familiar, já reduzida, nos domicílios onde os ganhos somam até R$ 4,1 mil.

Esse cenário de maior pobreza generalizada, com inflação em alta, leva à multiplicação de iniciativas emergenciais. Embora avesso a políticas do gênero, Jair Bolsonaro se convenceu da necessidade de manter o auxílio financeiro emergencial por mais três meses, como confirmou na segunda-feira.

Ele resistiu durante todo o primeiro trimestre do ano passado. Se manteve nessa posição no final de 2020, com apoio do Ministério da Economia. Resultado: em dezembro o governo retirou a ajuda mensal média de R$ 600 aos pobres, deixando-os no zero absoluto em janeiro.

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O empobrecimento crescente se refletiu nas pesquisas, com avaliação negativa recorde (no patamar de 60%) do desempenho de Bolsonaro na crise, impulsionada nos últimos dois meses pelas revelações da CPI da Pandemia.

A reação governamental está na renovação do auxílio emergencial por mais 90 dias, com perspectiva de reformulação do Bolsa Família na sequência. Isso tende a provocar alguma melhoria na imagem do presidente-candidato na abertura do ano eleitoral de 2022.

Mas os planos do governo vão além de um Bolsa Família turbinado para os pobres. A reforma do Imposto de Renda, entregue ao Congresso na semana passada, foi desenhada para seduzir a classe média com um aumento na faixa de isenção do IR (de R$ 1.900 para R$ 2.500).

A ideia é mesmo bombar o consumo no ano eleitoral, ampliando as possibilidades de Bolsonaro na disputa do próximo ano. Hoje elas são restritas, porque ele se transformou num caso inédito de presidente que, candidato à reeleição, enfrenta rejeição da ampla maioria do eleitorado (61,8% nas pesquisas).

Alguns governadores e prefeitos perceberam e preparam anúncios de complementos locais. São programas voltados à segurança alimentar, para distribuição de “vales” conversíveis em cesta básica ou botijões de gás de cozinha.

Alimentos consomem cerca de 60% da renda domiciliar dos pobres. Nos últimos doze meses subiram em média 15,4% para essa maioria da população. O gás de cozinha já teve seis aumentos de preço neste ano. Desde ontem, custa até R$ 140 (botijão 13 kg) em algumas áreas do Centro-Oeste, o equivalente a 16% de um salário mínimo líquido (descontados os tributos).

Ontem, por exemplo, o governador Ibaneis Rocha (MDB-DF), candidato à reeleição, anunciou um “Cartão Gás” com público-alvo de 40 mil famílias do entorno de Brasília, a cidade com maior renda per capita do país. Ele já distribui nos distritos mais pobres um tipo de quase-moeda (“Cartão Prato Cheio”) no valor de R$ 250 por mês.

Ibaneis desfruta de uma relativa folga no caixa. A União paga boa parte (cerca de 40%) das despesas da administração da capital federal. E ele acaba de receber um extra de R$ 444 milhões como dividendos da companhia de energia privatizada em dezembro.

Há outros dez governadores sonhando com uma arrecadação extra em torno de R$ 180 bilhões, via privatizações e concessões de serviços públicos, para compor um caixa que pode ser decisivo nos seus projetos eleitorais, de reeleição ou da disputa por vaga no Senado. Daí, a efervescência em torno de programas sociais emergenciais.

Fora dos palácios, convive-se com uma dura realidade pandêmica: ampla maioria dos eleitores encontra grande dificuldade para voltar a ter acesso ao mercado de trabalho, e é rarefeita a oferta governamental de meios de qualificação para a massa de trabalhadores que, antes da pandemia, vivia numa economia bem menos digitalizada do que essa da virada do semestre.

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