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José Casado Por José Casado Informação e análise

Bolsonaro, Arthur Lira e Ciro Nogueira converteram Paulo Guedes

Ontem, Bolsonaro inaugurou uma adutora. Dela, porém, não sai um só litro d' água. Ele cortou investimentos em obras para privilegiar o Centrão no orçamento

Por José Casado Atualizado em 22 out 2021, 04h35 - Publicado em 22 out 2021, 08h00

Ninguém faz a feira confiado em Jair Bolsonaro, Arthur Lira e Ciro Nogueira. É o que há tempos se escuta entre mesas de São Paulo e Brasília. O trio, agora, virou quarteto com Paulo Guedes na lista.

Sobram razões para desconfiança no governo. Bolsonaro, por exemplo, passou a tarde de ontem em Sertânia, a 300 quilômetros do Recife. Foi à Adutora do Agreste, projetada para levar água a 23 municípios pernambucanos. Viajou 2,5 mil quilômetros para inaugurar uma obra paralisada há oito anos.

No palanque da reeleição foi comparado a Cristo pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, prostrado diante do chefe: “Água é saúde, água é vida. Água que batizou Jesus Cristo no rio Jordão, hoje, através das mãos do presidente Jair Messias Bolsonaro, vai matar a sede do povo do sertão da Paraíba e do Nordeste.”

Quando o Messias de Queiroga foi embora, os 2,5 milhões de habitantes da região continuaram na sede agrestina: da adutora não jorrou um único litro d’água. Foi inaugurada, mas permanece no catálogo do museu nacional de obras inacabadas porque, em abril, o próprio Bolsonaro vetou o repasse dos recursos (R$ 150 milhões) necessários à sua conclusão.

Havia dinheiro no caixa, porém, a prioridade era o orçamento paralelo (cerca de R$ 16 bilhões) controlado pelo deputado Arthur Lira, presidente da Câmara, e pelo ministro Ciro Nogueira, da Casa Civil, líderes do Centrão, o esteio parlamentar do governo. Então, a adutora entrou na lista de corte de despesas federais. Motivo: está em Pernambuco, estado governado pelo PSB  que, na eleição de 2018, se aliou ao PT de Lula — e ameaça repetir.

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O milagre das águas, anunciado pelo ministro da Saúde, não aconteceu porque Bolsonaro deu preferência orçamentária aos aliados do Centrão, interessados na própria reeleição. Não sobrou dinheiro para a água prometida no agreste nem para socorrer o eleitorado urbano pobre, aturdido na crise inflacionária.

Talvez sejam episódios do fim de ciclo político descrito por um economista carioca, um ano antes de ingressar no ministério de Bolsonaro. Na época, janeiro de 2018, ele amparou sua tese sobre “os últimos suspiros de uma velha ordem” numa lista de evidências. Destacou uma delas: “Pular a cerca da responsabilidade fiscal parece ser o novo foco, não mais o cumprimento do teto de gastos”.

Seguiu num sobrevôo da disputa de poder pela vanguarda do atraso: “A ‘governabilidade’ tornou-se uma compra ostensiva de sustentação parlamentar no varejo, voto a voto, por baixo do radar da fidelidade partidária, desmoralizando as filiações e os programas dos partidos através das mercenárias práticas atuais.”

Prosseguiu: “A ininterrupta expansão dos gastos públicos por décadas corrompeu a República e levou à estagnação. A concentração de recursos no governo central enfraqueceu a Federação, perverteu a classe política, desidratou os serviços públicos de segurança, saúde e educação nos municípios e derrubou nossa taxa de crescimento econômico pela má alocação de investimentos.”

“É o fim de uma era”, arrematou Paulo Guedes naquela segunda-feira 8 de janeiro de 2018, em artigo publicado no Globo. Confessou estar impressionado com “o fôlego exibido pela Velha Política em seus derradeiros meses de existência”.

Depois de 44 meses, Bolsonaro, Arthur Lira e Ciro Nogueira converteram Guedes, o ministro da Economia, a pedir “licença para gastar” durante a batalha eleitoral de 2022. Pretendem renovar o “fôlego”.

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