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José Casado Por José Casado Informação e análise

Bolsonaro ameaça empresas por causa da CPI

Ao insinuar retaliação à Zona Franca por causa de senadores do Amazonas na CPI, Bolsonaro semeou insegurança entre empresas com vendas de US$ 20 bilhões

Por José Casado Atualizado em 23 Maio 2021, 03h48 - Publicado em 23 Maio 2021, 09h20

Jair Bolsonaro se atropelou ao insinuar ameaças à Zona Franca de Manaus em retaliação aos senadores do Amazonas Omar Aziz (PSD) e Eduardo Braga (MDB), integrantes da CPI da Pandemia.

“Imagine Manaus sem a Zona Franca” — ele disse em redes sociais. “Hein, senador Aziz, você que fala tanto na CPI… Senador Eduardo Braga, imagine aí o Estado, ou Manaus, sem a Zona Franca.”

Chefe de um governo que se anuncia liberal e precisa desesperadamente de investimentos privados, Bolsonaro semeou insegurança no horizonte de um conjunto de empresas cujo faturamento anual soma US$ 20 bilhões (cerca de 108 bilhões). Dele depende a subsistência de 100 mil trabalhadores, formais e informais, no Amazonas.

A Zona Franca de Manaus existe há meio século, foi dinamizada na ditadura militar e suas virtudes e defeitos frequentam um antigo debate sobre o nível de eficiência dos subsídios estatais.

É a primeira vez que um presidente insinua publicamente o uso do poder governamental para atrapalhar a vida das empresas estabelecidas em Manaus numa vingança política contra adversários no Congresso.

Na teoria, Bolsonaro pode muito na provocação de estorvos burocráticos na vida empresarial — da papelada fiscal ao controle aduaneiro. Na vida real, pode muito pouco porque a Zona Franca está protegida na Constituição e consolidada sobre um arsenal legislativo.

O dano já provocado supera o significado do caudal de palavras a esmo. Executivos de indústrias de Manaus passaram o fim de semana recebendo instruções para moderar o ritmo de planejamento de investimentos.

É natural que protejam o dinheiro dos acionistas — na maioria de São Paulo — num cenário local de riscos pandêmicos, econômicos e políticos potencializados pelo protagonista da crise, o presidente da República.

Ao ameaçar retaliar as empresas, Bolsonaro se expôs no temor e na fragilidade diante do avanço das investigações sobre a gênese do descontrole governamental na pandemia. E a CPI ainda nem completou um mês de atividade.

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