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José Casado Por José Casado Informação e análise

A estreia da tropa de Bolsonaro na CPI

A difícil missão de defender o governo no Congresso

Por José Casado Atualizado em 5 Maio 2021, 07h43 - Publicado em 5 Maio 2021, 08h45

Defender governo, qualquer governo, é missão quase impossível no Congresso, em qualquer Congresso. O conservador Milton Campos, ex-governador de Minas Gerais e primeiro ministro da Justiça na ditadura instaurada em 1964, não escondia a inveja dos adversários: “Criticar o governo é tão gostoso que não deveria ser monopólio da oposição.”

Ontem os senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Eduardo Girão (Podemos-CE) estrearam no embate direto em defesa de Jair Bolsonaro, cuja característica é fazer oposição ao próprio governo. A seguir, alguns momentos deles no plenário da CPI da Pandemia.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) se queixava das manobras da bancada governista na CPI, protagonizadas por Ciro Nogueira.

– É em toda sessão, homem! Em toda sessão. Parece que ficam embromando, empurrando com a barriga, atrasando o serviço. Estamos com depoente [ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta] aqui esperando. O plano de trabalho está consagrado. Já houve várias comissões parlamentares de inquérito em que, em algumas, o plano de trabalho foi apresentado e votado, sim, sim; e outras em que não foram votados. Eu lhe dou uma lista…

(Ouviu-se um comentário fora do microfone.)

Randolfe prosseguiu: – … E outra coisa: é só ler, Ciro…

– Cite uma – interrompeu Ciro. – Estou pedindo para o senhor falar uma!

Randolfe: – ‘Bora’ trabalhar, homens! Vamos trabalhar!

Ciro: – Eu queria que o senhor me citasse uma CPI em que não foi aprovado o plano de trabalho, Senador.

Randolfe: – Calma! O Palácio do Planalto está tranquilo. Não precisa de o senhor ficar desesperado assim, não.

Ciro: – Olha, eu não gostaria de viver para ver o dia de hoje, Senador, em que o senhor é contra votar um plano de trabalho.

Randolfe: – Ciro, o Palácio do Planalto está tranquilo. Não precisa de você ficar desesperado em nome deles, não, homem!

Ciro: – Não estou desesperado.

Randolfe: – Fique tranquilo!

Ciro: – Desesperado está o senhor que parece que quer encobrir o desvio dos Governadores.

Randolfe: – Não, não! Eu sou oposição ao Governador do meu Estado.

Ciro: – Mas não parece.

Randolfe: – Eu sei que você está com a assessoria direta da doutora Thaís [Amaral Moura, assessora da Secretaria da Presidência da República],  lá do Palácio do Planalto. A doutora Thaís o deve estar assessorando diretamente. Está fazendo os seus requerimentos. As suas orientações estão vindo diretamente de lá. Mas tenha calma, porque esta CPI vai investigar. Ela vai conduzir o seu trabalho. Não adianta…

Acrescentou: – E outra coisa, o senador Renan  [Calheiros] já falou: “Ô tropa de choque atrapalhada, homem!” Vão para o Supremo Tribunal Federal para tentar obstruir toda vez. Parece que tem uma coisa pessoal contra o relator [da CPI, Renan]. Toda vez. Tem uma paixão aí pelo relator, homem! Toda vez ficam querendo questionar os trabalhos do relator. Está no plano de trabalho aqui feito. Olha aqui: emprego de recursos federais. Só era ler, homem! Só era ler! Só era se dar ao trabalho de ler o plano de trabalho. Está aqui.

Ciro: – Eu gostaria de saber por que o senhor é contra votar o plano de trabalho.

Randolfe: – Teve aqui um exercício de maioria. Eu sei que vocês não tão acostumados. Democracia se faz com respeito à minoria, mas respeitando sobretudo a vontade da maioria.

*

Pouco depois, o senador cearense interpelou o ex-ministro da Saúde, agora adversário de Bolsonaro .

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Ciro: – Para esclarecer, ministro Mandetta.  O senhor recomendou que as pessoas ficassem em casa fazendo orações, tomando chá e canja de galinha?

Mandetta: – Primeiro, orações eu faço todo dia. Eu não tive nem um dia, Senador, que eu tenha entrado no…

Ciro, interrompeu: – Não, eu só gostaria de saber se a frase é sua.

Mandetta: – … no Ministério da Saúde que eu não tenha rezado uma ave-maria.

Ciro: – Eu também rezo todos os dias!

Mandetta retrucou: – E hoje, antes de vir para cá, eu li a oração de São Jorge.

O senador Eduardo Girão (Podemos-CE) apertou o botão do microfone e partiu em ofensiva contra Mandetta:

Girão: – O presidente (Jair Bolsonaro) pediu para que não se realizasse o Carnaval?

Mandetta: – Não.

Girão: – O presidente da República.

Mandetta: – Não.

Girão: – Essa informação… Não para o senhor?

Mandetta: – Não.

Girão: – Mas ele chegou a falar isso publicamente.

Mandetta: – A mim, não. Nunca.

Girão: – Tá.

Então, o senador decidiu mudar de rumo, ainda incisivo:

Girão: – O senhor falou que o Brasil foi pioneiro em comprar 15 mil respiradores. Eu não lembro o preço unitário que o senhor falou.

Mandetta: – Treze mil.

Girão: – Treze mil? Treze mil reais?

Mandetta: – É. Para a indústria brasileira.

Girão se rendeu: – É, preço barato. Realmente, tenho que parabenizar…

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