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José Casado Por José Casado Informação e análise

A direita pede socorro na CPI

Senadora governista critica: "Parece que basta vestir verde e amarelo e você é anticorrupção, e não é isso que temos visto, infelizmente. É muito triste"

Por José Casado Atualizado em 19 set 2021, 03h54 - Publicado em 19 set 2021, 08h00

Soraya Thronicke, 48 anos, advogada e senadora pelo PSL do Mato Grosso do Sul, está preocupada com a imagem em construção da direita brasileira. Teme os reflexos das falcatruas na Saúde que está ajudando a desvendar na CPI da Pandemia, onde integra a bancada feminina, que tem voz, mas não tem direito a voto.

Ela chegou ao Senado em 2019, a bordo de 373 mil votos, eleita na confluência do antipetismo com o bolsonarismo. Até então, era uma líder de movimentos conservadores de pouca visibilidade, como Pátria Livre e Reaja Brasil, com atuação restrita às ruas de Campo Grande, epicentro do agronegócio que fez do Mato Grosso do Sul uma potência na exportação (14% do total) de açúcar, soja, carne e milho.

Emergiu na militância contra o aborto, a liberação das drogas, e na defesa radical da família — sem exclusões, o que abrange mães solteiras e casais homossexuais. Entrou na política pela portaria mais cobiçada do Legislativo, a do Senado.

É “de direita”, como se define. Mas se sente constrangida, confessou no plenário da CPI da Pandemia nesta semana, depois de ouvir o depoimento de um especialista em trapaças no governo, que acabara de se declarar “de centro-direita” e defensor “da pauta da família, da bandeira da anticorrupção e do liberalismo econômico”.

Ela desabafou: “Eu me sinto muito constrangida em estar misturada com essas pessoas que se dizem de direita. E vamos aqui fazer um parêntesis: a corrupção não tem ideologia nenhuma – tem corruptos de direita e de esquerda. E tem gente que pensa que não existem corruptos de direita ou oportunistas que levantam uma bandeira, e a bandeira anticorrupção não é só da direita, é de qualquer cidadão.”

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“É preciso que não nos confundam”, prosseguiu. “Nasceram aí certos nomes, como direita radical, direita oportunista, direita irracional… Mas tem gente que é da direita racional, da direita séria e que, por conta desses oportunistas, dessas pessoas que se aproveitaram de uma bandeira que nem sabem o que é… Essas pessoas estão acabando com a direita brasileira, a direita séria. Parece que basta vestir verde e amarelo e você é anticorrupção, e não é isso que nós temos visto, infelizmente. É muito triste, é muito triste. Sinceramente, me deixa sem palavras.”

A senadora lembrou que o profissional de vigarices em Brasília havia encerrado sua apresentação à CPI com uma  solene evocação religiosa (“Que Deus abençoe todos, que Nossa Senhora passe na frente!”).

“Eu vejo que o senhor é devoto de Nossa Senhora também, não é?” — provocou. O rapinante da Saúde assentiu, maneando a cabeça.

Ela rebateu em voz alta: “Coitada de Nossa Senhora!”

“Eu tenho vergonha!” — disse, irada. E arrematou com um pedido: “Por favor, não confundam isso aí com a direita. Não nos misturem, não generalizem, pelo amor de Deus!”

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