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Jorge Pontes Jorge Pontes foi delegado da Polícia Federal e é formado pela FBI National Academy. Foi membro eleito do Comitê Executivo da Interpol em Lyon, França, e é co-autor do livro Crime.Gov - Quando Corrupção e Governo se Misturam.

Vacina leva bolsonarismo ao divã do analista

Afinal, a vacina é “chinesa do Doria” ou é “do Brasil”?

Por Jorge Pontes 18 jan 2021, 19h55

“Não quero a vacina chinesa do Doria!”, disse de cara Bolsonaro, depreciando o imunizante que leva a marca do centenário e respeitado Instituto Butantan, ao perceber que a CoronaVac já estava em adiantado processo de desenvolvimento e aprovação.

“A vacina é do Brasil, não é de nenhum governador não!”, disse hoje o mesmo Bolsonaro, sobre a mesma CoronaVac que ele rejeitou cabalmente, há apenas algumas semanas…

É por essas e outras que deve estar cada vez mais difícil a vida dos bolsonaristas pelas redes sociais Brasil afora.

Como manter-se fiel a um presidente vacilante, que se contradiz e se confunde a cada vez que se manifesta sobre algum tema relevante para o país?

Logo no início do imbróglio, Bolsonaro perdeu a grande oportunidade de ficar calado. Ao saber que o general da saúde Eduardo Pazuello encomendara as “vacinas do Doria”, humilhou-o publicamente, e desautorizou em rede nacional a aquisição do imunizante.

Bolsonaro nem se preocupou em disfarçar os motivos da contra-ordem: ciúmes rasgados do governador de São Paulo, que fez o seu dever de casa, com as gestões políticas e administrativas que lhe couberam para conseguir a única vacina que a sociedade brasileira dispõe até o momento.

E como ficam os fanáticos seguidores do presidente? Afinal, a vacina é “chinesa do Doria” ou é “do Brasil”?

Na sequência de descalabros, um avião foi preparado e adesivado (com propaganda enganosa) para voar para a Índia e trazer 2 milhões de doses do imunizante do consórcio farmacêutico Oxford – AstraZeneca. Mas esqueceram de combinar com os indianos. O avião nem levantou voo e não há sequer uma data para a viagem acontecer.

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O governador João Doria, em realidade, frustrou uma imunização cenográfica que era preparada por Pazuello.

Mas o mais grave de tudo é a existência de muitos milhões de brasileiros que torciam por essa “imunização cenográfica”, mesmo sabendo tratar-se de uma grande farsa.

Isso é o pior do bolsonarismo: o apoio e, por que não dizer, a torcida fanática de uma multidão que perdeu total e deliberadamente o senso crítico. São pessoas para os quais não importa se o que é produzido é fake, se é teatro puro ou se é cenográfico. O importante é o que enaltece a figura mitológica e sagrada de Jair Bolsonaro.

Esse seria o teatro que os municiaria com fotografias e infinitos argumentos furados para o bate-boca sem fim que travam nas redes sociais. O negócio dos bolsonaristas é ter munição para o embate nas redes. Se o argumento é bom ou ruim, isso não importa. Daí a razão porque são contra qualquer medida de controle de fake news. As fake news e os ambientes cenográficas são a fonte diária desses fanáticos.

Vi, com meus olhos, em um grupo de discussões do qual participo, um bolsonarista pateticamente comemorando (contra si próprio, sem se dar conta) a taxa de eficácia de 50.38 %, atingida pela CoronaVac, tal qual um torcedor comemora um gol levado pelo time adversário.

Mas a aprovação da vacina CoronaVac pela Anvisa marcou um encontro duro dos negacionistas com a realidade. As redes se calaram. Não havia o que ser rebatido. O presidente estava emparedado, e criara, para si e para seus seguidores, um labirinto com suas próprias contradições.

O bolsonarismo foi inteiro para o divã do analista, numa crise de identidade e de dissonância cognitiva sem precedentes até então.

E temos vacina!

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