Clique e assine a partir de 9,90/mês
Jorge Pontes Jorge Pontes foi delegado da Polícia Federal e é formado pela FBI National Academy. Foi membro eleito do Comitê Executivo da Interpol em Lyon, França, e é co-autor do livro Crime.Gov - Quando Corrupção e Governo se Misturam.

Os 100 mil brasileiros mortos que já assombram Bolsonaro

Presidente encarou - aparentemente - a chegada do vírus em nosso país como uma ameaça apenas à economia e, por conseguinte, à sua reeleição em 2022

Por Jorge Pontes - 7 ago 2020, 17h27

O presidente Bolsonaro fez uma aposta errada (que vai lhe custar muito caro) desde que a epidemia da Covid-19 aportou no Brasil.

Encarou – aparentemente – a chegada do vírus em nosso país como uma ameaça apenas à economia e, por conseguinte, à sua reeleição em 2022.

A reeleição está, de fato, em tudo que o presidente faz, e igualmente no que deixa de fazer.

Bolsonaro não disfarçou sua insensibilidade para a “maior crise sanitária mundial da nossa época”, segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS. Para o presidente, o número de mortos se consubstanciaria em uma mera e fria variante de equação econométrica.

Chegou ao absurdo de dizer, em umas de suas lives, que a Covid-19 não vitimaria, por aqui, mais do que oitocentas pessoas.

Destilou indiferença e grosserias em todas as manifestações sobre o tema. Em inúmeras falas, todas registradas em vídeo, chamou a epidemia que já ceifava diariamente a vida de centenas de brasileiros, de “fantasia”, “histeria” e “pequena crise”. Sugeriu também, espumando no cercadinho do Alvorada, que a população enfrentasse o vírus “como homem, e não como moleque”…

Menoscabou a Covid-19, classificando-o de “gripezinha” ou “resfriadinho”, regozijando-se acerca de seu suposto “histórico de atleta”, em flagrante desrespeito aos que, aos montes, já sucumbiam com a doença.

Bateu o seu próprio record de estupidez quando, perguntado sobre o crescente aumento das mortes diárias, interrompeu seu interlocutor com um “eu não sou coveiro”, pondo fim abruptamente à conversa, como se nada tivesse a declarar sobre a tragédia que já se abatia sobre os seus governados.

Muito antes da epidemia atingir o número de 50.000 mortos o presidente sugeriu, seguidas vezes, a “volta à normalidade”.

Bolsonaro definitivamente não conseguia disfarçar sua frieza em relação à dor e à tragédia do coronavírus. Cada vez que menosprezava a epidemia, desrespeitava o sofrimento das famílias que enterravam seus entes queridos.

Continua após a publicidade

Exonerou o Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, em plena pandemia, depois de ignorar solenemente as suas recomendações – com lastro científico – pelo isolamento social. Bolsonaro desautorizava Mandetta quase que diariamente, com atos públicos, como passeios em meio a multidões, quando cumprimentava centenas de apoiadores, expondo-os ao risco de contaminação. Funcionou como um garoto propaganda às avessas, das diretrizes do seu próprio ministro.

Culpou a grande mídia de espalhar “pavor”, tão somente porque os números de mortos pelo Covid-19 eram contabilizados em rede nacional, pelos noticiários de TV.

Tentou fazer do oncologista Nelson Teich, sucessor de Mandetta na pasta da Saúde, um fantoche em prol da cloroquina – sem qualquer lastro científico. Teich entrincheirou-se com a ciência e pediu o boné, abrindo nova crise que marcou a perda de dois ministros da Saúde em pouco mais de trinta dias.

Como não conseguiu mudar o curso dos acontecimentos e da própria realidade, o presidente resolveu guerrear contra ela. Nomeou um general cumpridor de ordens que, como uma de suas primeiras medidas no ministério, determinou o fim da contagem e divulgação diária do número de afetados e mortos pela pandemia.

E o Brasil, com o desastrado e errático enfrentamento da Covid-19, capitaneado por Jair Bolsonaro, só perde para os Estados Unidos – de Donald Trump – em número de fatalidades.

Hoje, às vésperas de registrarmos o sinistro “número 100 mil” de vítimas fatais, assistimos ao presidente da República, quando perguntado sobre os mortos da pandemia, soltar pérolas como “e daí?” e “vamos tocar a vida”.

E a impressão que ficamos é que Bolsonaro não apenas em nada se ressente pelas perdas, mas, sobretudo, nutre um anacrônico sentimento de raiva e desprezo em relação aos que morreram.

Suas falas nos mostram um presidente com um semblante enfastiado no tocante ao assunto, como se estivesse se referindo aos mortos como a um exército de derrotados.

Há, da parte dele, uma indisfarçada contrariedade com os mortos da Covid-19. Não apenas lhe falta carinho (ou alguma contrição), mas lhe sobra desafeição e desamor ao se referir aos que morreram.

E há, nas expressões faciais e na sua linguagem corporal, algo mais do que simples falta de empatia, como se os 100 mil brasileiros que perderam suas vidas o tivessem contrariado e se tornado seus inimigos, adversários inertes e silenciosos, simplesmente porque morreram.

Nesse ponto talvez ele tenha uma ponta de razão: a sombra desses 100 mil brasileiros mortos têm um encontro marcado com o presidente em outubro de 2022.

Continua após a publicidade
Publicidade