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Jorge Pontes Jorge Pontes foi delegado da Polícia Federal e é formado pela FBI National Academy. Foi membro eleito do Comitê Executivo da Interpol em Lyon, França, e é co-autor do livro Crime.Gov - Quando Corrupção e Governo se Misturam.

O depoimento de Bolsonaro à Polícia Federal foi uma piada

Presidente mentiu pelo menos três vezes sobre a suposta interferência na PF do Rio de Janeiro

Por Jorge Pontes 4 nov 2021, 18h04

Nesta quinta-feira, 4, o país tomou conhecimento de que o presidente da República finalmente prestou seu depoimento – na data de ontem, 3 de novembro – no inquérito que apura a possível interferência de Bolsonaro na Polícia Federal, conforme foi detalhado pelo ex-Ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, quando de sua saída do governo, em abril de 2020.

O interessante é que a oitiva de Bolsonaro foi realizada sem nenhum alarde, quase que na surdina…

Sobre o objeto da investigação, até as pedras portuguesas do calçadão de Copacabana estão desgastadas de tanto saber que Bolsonaro fez de tudo para interferir na Superintendência da PF carioca.

Merecem destaque, em uma situação repleta de absurdidades, três mentiras descaradas que foram ditas, nesse depoimento, pelo chefe do executivo federal.

O primeiro é a acusação vazia, e sem arrimo algum nos fatos, de que Sergio Moro teria barganhado a troca do superintendente do Rio pela sua indicação para um vaga no Supremo Tribunal Federal.

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Ora, Moro saiu do governo justamente porque discordou cabalmente da situação que envolvia a troca de chefes da PF no Rio. E ainda há o registro da tentativa atabalhoada da deputada Carla Zambelli de propor o “negócio” da vaga no STF, pela permanência de Sergio Moro no governo, com a aceitação da troca proposta pelo presidente, no que foi respondido com a hoje já conhecida frase “prezada, eu não estou à venda”.

O segundo absurdo foi dizer que chamou o delegado Carlos Henrique Oliveira de Sousa – indicado para assumir a unidade carioca da PF – no seu gabinete no Palácio do Planalto, para “conhecê-lo melhor”, ou seja, com as palavras do depoente Jair Bolsonaro “para que o novo superintendente de um dos estados mais importantes da Federação fosse apresentado ao presidente da República”.

Essa resposta é um escárnio, um tapa na cara de qualquer pessoa que conheça minimamente a hierarquia dos órgãos públicos federais. Chamar um indicado para o 5º escalão da burocracia federal ao gabinete do presidente da República é algo de um descabimento total, e que não guarda nenhum precedente republicano. Deveria ter sido perguntado, ato contínuo, pela autoridade policial que presidiu a aludida oitiva, se Bolsonaro também chama em seu gabinete os superintendentes indicados para assumir as unidades da Polícia Federal em estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pernambuco, entre outros, pois todos estão igualmente entre as mais importantes unidades da Federação.

Essa agenda de um indicado a superintendente da PF com o presidente da República, no Palácio do Planalto, simplesmente não tem como ser justificada. O interesse do presidente naquela unidade da Polícia Federal tem e segue tendo viés meramente policial, cujos interesses são totalmente pessoais.

Por fim, a terceira quintessência do absurdo foi a resposta sobre a tentativa de troca da chefia da unidade da Polícia Federal em Pernambuco, sob a justificativa esfarrapada de baixa produtividade. É preciso lembrar que presidente da República não administra nem delibera questões de produtividade de unidades policiais. Essa é tarefa para o diretor-geral da PF. Nem o Ministro da Justiça entra nessa seara. E o mais importante é que a superintendência da PF em Recife, sob a batuta da delegada Carla Patrícia, estava com alta produtividade, tendo sido tal sucesso, inclusive, reconhecido por um prêmio concedido pela Associação Nacional dos Procuradores da República. Ao contrário do que disse o presidente, a unidade de Pernambuco foi a que mais deflagrou operações especiais, de combate à corrupção e aos crimes financeiros.

Resta agora, ao delegado da PF que tomou o depoimento do presidente, cotejar as respostas do ilustre depoente com a realidade dos fatos e decidir conforme a sua consciência jurídica.

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