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Jorge Pontes Jorge Pontes foi delegado da Polícia Federal e é formado pela FBI National Academy. Foi membro eleito do Comitê Executivo da Interpol em Lyon, França, e é co-autor do livro Crime.Gov - Quando Corrupção e Governo se Misturam.

Fala de Pujol pode servir (também) para a Polícia Federal

General afirmou que o Exército “não muda sua maneira de pensar de quatro em quatro anos”

Por Jorge Pontes Atualizado em 13 nov 2020, 17h40 - Publicado em 13 nov 2020, 17h39

O general Edson Leal Pujol, comandante do Exército, rompeu o silêncio que lhe é peculiar em fala ocorrida nesta última quinta-feira, numa live da qual participou no Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa.

O general disse, com todas as letras: “não queremos fazer parte da política governamental ou política do Congresso Nacional e muito menos que a política entre em nossos quartéis.”

A fala de Pujol pode ser interpretada – com razoável nitidez – como a demarcação de uma linha que impõe limites em favor do Exército, que institucionalmente deve ficar sempre a salvo das deletérias influências políticas.

O governo do presidente Bolsonaro já se descortina como um fracasso retumbante em diversas frentes, e as Forças Armadas, que cederam centenas de quadros para integrar importantes posições governamentais, já pressentem que podem acabar com a imagem arranhada, ao serem identificadas demais com o “capitão” e suas patuscadas.

Mas a melhor intervenção de Pujol foi, sem dúvida, a de hoje, quando, em outra declaração disse que o Exército “não muda sua maneira de pensar de quatro em quatro anos”, com a entrada do governante da vez.

O comandante do Exército passou uma mensagem que pode – e deve – ser perfeitamente absorvida por outras instituições do estado brasileiro, como a Receita Federal, a Abin e, principalmente, a Polícia Federal.

Nos últimos anos observamos a Polícia Federal atuar de forma incansável na realização de operações repressivas que atingiram empresários corruptores e políticos corrompidos.

É o enfrentamento histórico e transformador que deu origem a operações como a Lava Jato, a Greenfield, a Pathmos, a Calicute e a Zelotes.

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Muitas dessas ações foram originadas em inquéritos policiais conduzidos por delegados federais que atuavam diante de ministros dos tribunais superiores (tanto o STF como o STJ) por conta do foro privilegiado dos seus alvos.

É desse mote que a Polícia Federal não pode se afastar, em hipótese alguma. E, além de não se afastar, tem que aperfeiçoar e fortalecer sua plataforma de atuação e, principalmente, o relacionamento institucional com esses tribunais e seus ministros, para seguir atingindo o crime institucionalizado, o mais alto extrato da delinquência no país.

Com a saída do ministro Sergio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, temos observado que, coincidentemente, a Polícia Federal vem, com admirável sucesso, realizando sequencialmente operações de combate ao crime organizado, mais especificamente às facções criminosas que se dedicam ao tráfico de drogas e de armas.

Importa, no momento em que reconhecemos e louvamos essas ações de enfrentamento ao tráfico, lembrar que os esforços que deram azo às operações de combate à grande corrupção não podem arrefecer.

Tanto quanto ser um órgão de Estado, temos que parecer um órgão de Estado. Essa aparente mudança de eixo, nas nossas operações repressivas, não pode confundir a sociedade.

Como bem disse o general Pujol, em defesa do seu centenário Exército de Caxias, não podemos mudar nossa atuação por conta do inquilino da vez do Planalto.

Essa ideia serve principalmente para a Polícia Federal, que guarda, com o Ministério Público Federal, a responsabilidade de enfrentar a impunidade crônica do nosso sistema, uma missão instrumental para os anseios de transformação e desenvolvimento da nossa sociedade.

Esperamos seguir assistindo, sem nenhum esmorecimento, a sequência das grandes operações contra a delinquência institucionalizada, que fizeram da Polícia Federal a instituição mais respeitada do país, doa a quem doer.

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