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Jorge Pontes Jorge Pontes foi delegado da Polícia Federal e é formado pela FBI National Academy. Foi membro eleito do Comitê Executivo da Interpol em Lyon, França, e é co-autor do livro Crime.Gov - Quando Corrupção e Governo se Misturam.

Advogados de Lula e Bolsonaro são alvos da mesma operação da PF

Ação aponta para as semelhanças, cada vez mais evidentes, entre o bolsonarismo e o lulopetismo

Por Jorge Pontes Atualizado em 10 set 2020, 08h53 - Publicado em 9 set 2020, 17h40

Em novo desdobramento da Operação Lava Jato, escritórios de advocacia que prestam serviços a políticos como Lula e Bolsonaro, são alvos de mandados de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal, por ordem do juiz federal Marcelo Bretas.

Não é a toa que já vínhamos apontando para as semelhanças, cada vez mais evidentes, entre o bolsonarismo e o lulopetismo.

Quando o ministro Luis Roberto Barroso, do STF, diz, com a propriedade de quem já entendeu o funcionamento do crime institucionalizado, que “as forças do atraso são muito bem defendidas”, ele toca em um dos pontos nodais do processo pelo qual estamos passando nesse exato momento.

Seria ingenuidade acreditar que esses esquemas milionários de corrupção sistêmica envolvam apenas duas partes, isto é, os políticos e os grandes empresários. A delinquência institucionalizada cooptou também o que chamamos de “superestruturas”, que, de forma periférica à corrupção central, são seus mais importantes elementos de suporte.

E é exatamente por isso que, passados seis anos da primeira fase da Lava Jato, percebemos que a corrupção não desvaneceu como deveria, mesmo depois de tantas prisões e condenações de políticos e megaempresários.

É aí que atuam, com força máxima, as superestruturas, os grandes “defensores do atraso”, como diz o ministro Barroso. E defendem esse atraso pois é justamente dos anacronismos por ele produzidos que extraem suas participações, suas benesses e suas beiradas.

Exemplo clássicos dessas superestruturas seria uma legião de advogados criminalistas, ao lado de setores relevantes da OAB. Esse quadrante da advocacia operaria como intermediária junto aos pontos “vulneráveis” dos tribunais e tribunais superiores. Estes últimos, por sua vez, também formariam uma das mais inexpugnáveis superestruturas: o tecido comprometido do Poder Judiciário.

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De fato, quadrantes do Poder Judiciário formariam essas superestruturas, principalmente nos tribunais e tribunais superiores. O Ministério Público também já sofreu e sofre constantemente tentativas de ser conquistado, como no caso dos esquemas do ex-governador Sergio Cabral.

Essas superestruturas são muitas vezes cooptadas por intermédio da concessão de vantagens e privilégios funcionais. Não se locupletam diretamente do dinheiro desviado das licitações e dos sobrepreços. Não estão necessariamente no mecanismo das fraudes. São beneficiados de forma enviesada. Os milhões escoados pela criminalidade institucionalizada, muitas vezes, de forma indireta, irrigam os mercados onde elas atuam.

A operação de hoje, onde, dos 26 denunciados, 23 são advogados, sendo um deles ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), não nos deixa mentir…

Essa operação talvez explique por que tantos advogados criminalistas se posicionam ferrenhamente contra a prisão após decisão em segunda instância, contra as delações premiadas e, enfim, contra a Operação Lava Jato e tudo que ela conquistou e representou de novo para a sociedade brasileira.

E talvez igualmente esclareça por que o presidente Bolsonaro tenha aparentemente abandonado a agenda de combate sem tréguas à corrupção sistêmica.

As superestruturas que protegem os esquemas e deles tiram suas vantagens e fatias acolhem os “falsos novos” políticos, capturando-os e os mantendo reféns dos velhos hábitos e esquemas. Toda tentativa de mudança e renovação é atacada em bloco, por todas às superestruturas, numa blitzkrieg, como a que agora estamos assistindo, nessa tentativa de bombardeio final à Operação Lava Jato.

Não é a toa que temos a sensação de que viraram o Brasil pelo avesso. Percebemos que as superestruturas agora buscam punir severamente procuradores da República e juízes federais que operaram a Lava Jato, como se esses fossem os bandidos da história.

E operam essa inversão de valores à luz do dia, sem mais nenhum pudor. E a sociedade, aparentemente distraída pela polarização política, assiste perplexa a essa reação anacrônica das velhas forças do atraso.

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