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Janela para Tóquio Por Piti Koshimura Um olhar para o cotidiano da cidade olímpica

Sustentabilidade em Tóquio: como é no dia a dia?

Camas de papelão, medalhas de material descartado... Capital japonesa levanta a bandeira de "olimpíada verde", mas na vida cotidiana o caminho ainda é longo

Por Piti Koshimura 30 jul 2021, 09h39

Medalhas feitas de materiais descartados, camas de papelão na Vila dos Atletas, madeira certificada nas novas arenas. Apesar de Tóquio se esforçar para levantar a bandeira de “olimpíada verde”, quem mora ou já esteve aqui sabe que sustentabilidade não é exatamente um fio condutor do dia a dia no Japão. Vendo, porém, algumas iniciativas ganhando espaço, ainda que timidamente, tenho esperança de ver mudanças nesse cenário. 

Ocupando o posto de segundo maior produtor de lixo plástico do mundo, o Japão tem um longo caminho pela frente — eu sei. Difícil imaginar o país sem as encantadoras máquinas automáticas de bebidas, por exemplo, que são praticamente onipresentes. Para cada 25 habitantes, existe uma máquina em pleno funcionamento. E o abastecimento não para. São mais de 22 bilhões de garrafas PET produzidas por ano, o que dá uma média de quase 180 garrafas PET por habitante. Em nome da conveniência, jogamos fora uma garrafinha de plástico a cada dois dias.

Em muitos supermercados no Japão, legumes são embalados individualmente
Em muitos supermercados no Japão, legumes são embalados individualmente Piti Koshimura/VEJA

Nas lojas e mercados, o plástico também reina. Frutas embaladas individualmente, docinhos também embrulhados um a um, marmitas com refeições do dia a dia — tudo em caixas ou filmes plásticos. Sem contar o saco plástico à disposição para embalar o guarda-chuva molhado ou a sacola plástica que embala a sacola de papel das lojas em dias de chuva. Esse é o plástico a serviço do omotenashi, o espírito de hospitalidade japonês, aquele que eu mencionei no post sobre o verão em Tóquio.

  • Adesivo do programa mymizu em porta de um café em Tóquio que sinaliza um ponto de abastecimento de garrafinhas d'água
    Adesivo do programa mymizu em porta de um café em Tóquio que sinaliza um ponto de abastecimento de garrafinhas d’água Piti Koshimura/VEJA

    Essa cultura do descartável parece imbatível, mas, ainda que lenta e gradualmente, surgem ações e iniciativas que mostram uma preocupação em reverter o consumo exagerado de plástico. O mymizu (“minha água”, numa tradução das palavras em inglês e japonês), por exemplo, é um aplicativo usado de forma colaborativa que mapeia lugares públicos ou estabelecimentos no Japão onde podemos abastecer nossa garrafinha d’água. A ideia não é só mapear pontos de bebedouros e torneiras, mas também de incentivar cafés e restaurantes a aderirem a ideia de encher a garrafinha dos frequentadores, sem custo nenhum. Vale dizer que, no Japão, a água de torneira é potável e que os restaurantes oferecem água aos clientes como cortesia. Numa ação parecida, desde julho de 2020, a gigante do varejo MUJI passou a oferecer pontos de abastecimento em suas lojas para que qualquer um possa repor com água sua garrafa.

    Outra ação que notei por aí é que, com o aumento do serviço de take out de comida durante a pandemia, alguns restaurantes passaram a incentivar o uso de recipientes trazidos pelo próprio cliente. Ainda é uma iniciativa bem tímida, praticada por pouquíssimos lugares, mas que, acredito, tenha potencial para se espalhar. 

    Para isso, porém, penso que uma mão do governo seja necessária. Desde que as sacolinhas plásticas de supermercado passaram a ser cobradas por lei, em julho do ano passado, vejo uma maior movimentação de pessoas usando sacolas próprias para carregarem suas compras. E aí vemos uma oportunidade de colocar em prática algo que ficou limitado a workshops de artesanato japonês: o furoshiki. Antiga técnica japonesa de dar nós em panos simples, o furoshiki é uma forma sustentável de carregar e transportar coisas, além de, diga-se de passagem, ser muito mais estilosa do que ficar desfilando com saquinho plástico.

    (Piti Koshimura)
    Furoshiki é uma técnica japonesa de amarrar panos para servirem como sacolas Piti Koshimura/VEJA

     

    Piti Koshimura mora em Tóquio, é autora do blog e podcast Peach no Japão e curadora da Momonoki, plataforma de cursos sobre o universo japonês. Amante de arquitetura e exploradora de becos escondidos, encontra suas inspirações nos elementos mundanos. (@peachnojapao | @momonoki_jp)

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