Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Isabela Boscov Por Coluna Está sendo lançado, saiu faz tempo? É clássico, é curiosidade? Tanto faz: se passa em alguma tela, está valendo comentar. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos

Por Isabela Boscov Atualizado em 11 jan 2017, 16h19 - Publicado em 1 jun 2016, 20h11

É bobagem? É. Tem defeitos? Montes deles. Mas também tem coração

Tenho um carinho especial pela bobagem feita com sinceridade e compromisso: sem esse espírito, o cinema não teria durado nem dez anos, quanto mais os 120 que já tem; e é dela que vem boa parte daquela diversão honesta e descomplicada que se pode ter numa sala de cinema. Apesar de todos os seus defeitos, então (e há uma penca deles), Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos terminou, para mim, com saldo positivo: não é o rumo que se previa para a carreira de Duncan Jones depois da ficção científica meditativa de Lunar e Contra o Tempo, mas é tão evidente que Jones estava adorando fazer Warcraft, e que conseguiu injetar esse mesmo ânimo no elenco, que não há como não se surpreender com o tanto de coração que há nesta adaptação do game mais jogado da história.

Divulgação

Em tempo: eu mesma nunca estive entre as centenas de milhões de jogadores de Warcraft: Orcs & Humans, World of Warcraft ou qualquer outra encarnação do game. Demorei, portanto para pegar o fio da trama – o filme já começa na corrida, e quem não tem familiaridade com o universo de Warcraft vai enfrentar uma meia hora de confusão: Durotan e os outros orcs parecem legais, mas por que eles seguem um feiticeiro tão obviamente nefasto como Gul’dan? Por que essa horda de brutamontes escolheu invadir o pacífico reino de Azeroth, com suas casinhas e castelos de contos-de-fadas? Qual é a de Medvih, o mago saradão que deveria proteger Azeroth mas há anos não bate ponto no emprego? Na verdade, porém, gostei da tática de Duncan Jones de não despender muito tempo com exposição: essa sensação que ela cria, de que o espectador está sendo jogado numa história que já vem andando, de certa forma reproduz o estado de alerta e imprevisto de entrar em um jogo online.

Divulgação

Continua após a publicidade

Warcraft, além disso, oferece desde o início dois guias competentes para esse mundo. Durotan (Toby Kebbel), chefe de um clã menor, concorda com a necessidade de encontrar uma nova terra para os orcs, mas acha barra-pesada demais a feitiçaria de Gul’dan (Daniel Wu) – uma luz verde-radioativo chamada Vileza, que se alimenta de vidas. Cada vez mais, parece-lhe urgente limitar a influência de Gul’dan. Por seu lado, Lothar (Travis Fimmel), o grande guerreiro de Azeroth, está vendo que a via militar apenas não vai garantir as chances do seu rei Llane (Dominic Cooper). Ele precisa da ajuda do mago Medvih (Ben Foster), o guardião do reino. Como Medvih anda meio, hmmmm, estranho, Lothar traz para suas fileiras Hadggar (Ben Schnetzer), um aprendiz de feiticeiro muito perspicaz, e Garona (Paula Patton), uma guerreira meio orc, meio humana que foi feita prisioneira por Llane – e, com a ajuda deles, começa a ensaiar uma negociação com Durotan.

Divulgação

Não é novo o truque dos adversários que descobrem ter um objetivo comum que os aproxima, mas ele funciona: é tão cheia de gente (e gente esquisita) a história de Warcraft que, sem esse eixo formado por Durotan e Lothar, ela não passaria de mera bagunça. Os atores, além disso, defendem seus papeis com empenho. O inglês Toby Kebbel, que fez o Koba de Planeta dos Macacos: O Confronto, é um talento da performance capture. No papel de Lothar, o australiano Travis Fimmel repete tal e qual o seu desempenho como o Ragnar Lothbrok da série Vikings: faz cara de deboche e se encosta em todos os batentes que encontra pelo caminho, mas é ótimo em cenas de batalha e, dentro e fora delas, tem um sei-lá-o-quê que ganha a cumplicidade do espectador. Gostei muito também de Ben Schnetzer como Hadggar – e acho que teria gostado mais de Ben Foster e Paula Patton se os papeis deles fossem um pouco mais bem escritos.

Divulgação

Warcraft, enfim, tem um roteiro que teria se beneficiado muito de mais algumas revisões. Visualmente, é cheio de inconsistências: vai da computação gráfica mais chinfrim até caracterizações eficazes, como a dos orcs, com suas armaduras de ossos e suas presas enormes (fiquei com a impressão que os atores estavam usando aqueles afastadores de dentista, mas deixa para lá). Os ganchos para uma possível continuação são tão óbvios que chegam a ser indecentes, e a trilha de Ramin Djawadi pega de empréstimo a música de todos os épicos da última década e meia. E, no entanto, no meio desse tumulto, há algo de genuíno que sobressai em Warcraft e diverte (ou me divertiu, ao menos), e que só pode ser o entusiasmo de Duncan Jones e seu apreço pelos atores. Como seu pai – David Bowie –, ele parece não estar nem aí para o que acham de suas escolhas, e faz o que faz com convicção.


Trailer


WARCRAFT: O PRIMEIRO ENCONTRO DE DOIS MUNDOS
(Warcraft)
Estados Unidos/China, 2016
Direção: Duncan Jones
Com Travis Fimmel, Toby Kebbel, Paula Patton, Dominic Cooper, Ben Foster, Ben Schnetzer, Daniel Wu, Ruth Negga, Clancy Brown, Rob Kazinsky, Anna Galvin, Callum Keith Rennie
Distribuição: Universal

Continua após a publicidade
Publicidade